A frase me acompanhou durante boa parte da vida e seu real significado ainda representa algum mistério para mim: “O banheiro é o único lugar onde ficamos sós sem nos sentirmos solitários, desde que estejamos devidamente sentados no vaso sanitário”.
O detalhe da privada é fundamental, ou seja, não adianta tentar se esconder da solidão tomando um banho de banheira, pois você provavelmente será tentado a se afogar na água morna em meio a sais de cheiro e espumas coloridas.
Tudo muda de figura, no entanto, se você estiver sentado no trono, onde o mundo das desilusões simplesmente desaparecem como que em um passe de mágica.
A lógica deste raciocínio sempre me pareceu bastante convincente, mas alguma dúvida persistia turrona, pois eu não conseguia entender por que somos invadidos pela paz de espírito enquanto estávamos satisfazendo necessidades fisiológicas básicas.
Eu não tinha certeza, mas hoje suspeito que o mistério resida no fato de que uma solidão natural como esta não dependa de convenções sociais e tampouco de nossa não aceitação pelas pessoas que nos cercam, ou seja, não estamos solitários porque as pessoas nos odeiam, mas sim porque não as queremos alí conosco e mesmo que elas quisessem não as aceitaríamos naquele momento... e isso faz muita diferença para nossa autoestima.
Visto desta forma fica mais simples resolver problemas de auto piedade, pois basta adotarmos uma postura rígida diante das adversidades da vida: estou em vias de me sentir solitário? Tudo bem... não procurarei ninguém para preencher meu vazio interior, mas, ao contrário disso, entrarei propositalmente em estado de isolamento voluntário. Vou em busca do Nirvana.
Hummmm! Muito zen... é difícil adquirir tanto autocontrole, não é? Então existe uma saída menos nobre, mas igualmente eficaz: mande tudo á merda e assuma suas cagadas com dignidade, pois quando nos encontramos nesta situação o mundo não passa mesmo de uma grande e mal cheirosa privada.
A saga de um robô, uma barata e seus deuses confusos, sob a ótica de um viajante intergaláctico, é uma obra ficcional e qualquer semelhança com as coisas reais do universo terá sido mera coincidência ou provocação de outro universo paralelo tentando se fazer de engraçadinho. Nenhum ser vivo, objeto inanimado ou entidade mítica está sofrendo maus tratos durante a produção deste blog.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Os Cinco Estágios do luto (Miraflores)
Um apresentador de programa de auditório dominical pouco
carismático, e ex-gordo nas horas vagas, convocou as quatro áreas do conhecimento
universal para um debate público na TV: ciência, religião, esoterismo e Dona Cotinha,
como representante da sabedoria popular, falariam sobre o recente sumiço do
Facebook. Três dias sem noticias.
Na falta de um cientista verdadeiro o ex-gordo chato se
contentou com uma psicóloga para opinar sobre os cinco estágios do luto e da ausência
do Face. Ela explicou que em se tratando de algo tão importante as pessoas ignoram
as outras fases – Negação; Barganha; Depressão; Aceitação – e se apegam apenas à
reação de Raiva: "Por que acabar com o Facebook? Não poderiam simplesmente
tirar a vida de um parente meu?".
O representante religioso, segundo a se exibir, foi mais
complacente, ofereceu conforto espiritual e prometeu um lugar no céu com acesso
irrestrito ao Face desde que os fiéis mantivessem a fé e o dízimo.
O esotérico jogou as cartas de Tarô contra o apresentador
que não parava de falar por um minuto e usou o galo que se formou em sua cabeça
para ler o futuro do Face. Segundo ele o alinhamento dos planetas com a
terceira casa do quarto astro zodiacal provocou uma interrupção cósmica do
sinal WI-FI sideral. Só um trabalho de Feng Shui, mudando os vasos e as torneiras
de lugar, poderia redistribuir as vibrações e trazer o Face de volta.
A Dona Cotinha, que já vinha fofocando com as dançarinas do
programa, não se conteve e perguntou se o apresentador ainda “dava no couro”,
recebendo a resposta tradicional e sem criatividade.
- Oh
loco, meu! Eu sou do tempo em que dar no couro significava espancar um bovino.
Dona Cotinha não riu – assim como ninguém mais ri do ex-gordo
– e concluiu que aquele sujeito não tinha condições de participar de uma fofoca
filosófica. Deu de ombros e emitiu opinião sobre o Facebook, doida para
encerrar sua participação no programa e voltar às coisas que realmente importantes
da vida:
- Segundo
meus contatos o problema do Face é a barata.
Aderbal, que estava na plateia, tinha instruções claras para
bater palmas sempre que alguém falasse alguma coisa, por maior que fosse a
besteira, mas aquela frase saiu tão genuína e sem sentido que ele ficou em
duvida se a piada teria continuação. Decidiu esperar um pouco até entender a
dinâmica da coisa, afinal era novo nesse ramo específico da idiotice humana.
O apresentador que sempre tinha resposta para tudo ficou
mudo. Olhou para a psicóloga em busca de socorro, apesar de saber que ela não
era exatamente uma cientista, mas a mulher também estava perdida e buscava
ajuda do exotérico que no momento apenas se ocupava em jogar búzios nas
estrelas do palco.
O diretor do programa pegou a deixa oferecida pela dona
Cotinha, chamou um comercial de aerossol mata baratas e correu aos bastidores para
espinafrar com a produção por terem elitizado um programa tão dominical. Barata!
O que eles queriam, afinal, botar o povo para pensar e filosofar? Tinham consciência
do impacto negativo que isso causaria na audiência?
Enquanto isso, na plateia, só se ouvia as palmas do Aderbal
que finalmente estabelecera um link entre a barata da dona Cotinha e o mata
baratas do comercial. “Um lance de gênio”, concluiu admirado.
Não muito longe dali um sistema ótico dotado de triplos
sensores CCD foram ativados e passaram a capturar imagens e cores com um efeito
tridimensional muito bacana, mas que não faziam qualquer sentido para o
observador por detrás das lentes. Ele pensou, calculou, meditou e fez a única
coisa que jamais deveria fazer: ele perguntou.
Intuitivamente ele sabia que um macho jamais deve perguntar,
mas ele sequer tinha certeza de ser um macho.
- Quem
sou eu? – direcionou a pergunta a quem se dispusesse a responder.
Uma barata muito descolada se apresentou como Bukakron e disse
que ele era o robô Miraflores.
- E por
que diabos eu, Miraflores, estou conversando com uma barata?
- Arrááá! – exclamou ela – Ai é que
esta!
- ???
Ela, a barata que na verdade era ele, revelou que ambos eram
amigos de longa data e que todas as informações de que ele precisava já estavam
disponíveis em seus próprios bancos de memória recém-atualizados. Bastava olhar
para seu interior – não no sentido filosófico, por que essa história de
filosofia é tudo besteira –, mas no sentido prático.
Miraflores aceitou que as coisas começavam a fazer algum
sentido, principalmente a visão pragmática sobre a filosofia. Procurou em suas
memórias e realmente encontrou toda a história de sua vida robótica, mas uma
coisa muito importante estava ausente:
- Onde
está o Facebook?
- O Face
não existe mais.
- Por
quê?
- Ele
estava obliterando sua cognição e nós, baratas, mastigamos e lambemos todos os
servidores, cabeamentos, manuais, anotações e revistas de sacanagem do
Zuckerberg.
Miraflores estava meio fora de forma no uso de procedimentos
de busca neural e acabou usando o método de pesquisa binária para encontrar o
significado do verbo obliterar. Demorou mas entendeu, porém não gostou do
contexto – e nem do linguajar erudito da barata. Deveria esmaga-la com urgência,
mas antes precisava de mais detalhes.
- Vocês destruíram
o Face e todas as evidencias de sua existência, tipo, Face nunca mais?
-
Exatamente. – o ar de felicidade da barata não condizia com a notícia.
- E
fizeram tudo isso só para me ajudar?
- É para
isso que servem os amigos.
- Como eu
faço para desfazer a amizade?
Aparentemente Bukakron estava preparado para a reação de desespero diante da abstinência
da droga Face.
A barata sorriu e respondeu:
- Bilhões de baratas espalhadas pelo mundo estão prontas para destruir
qualquer tentativa de reativar o Face.
- Ok! Desliga
o meu sistema e me bota em coma robótico novamente, por favor.
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