quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O lugar da solidão

A frase me acompanhou durante boa parte da vida e seu real significado ainda representa algum mistério para mim: “O banheiro é o único lugar onde ficamos sós sem nos sentirmos solitários, desde que estejamos devidamente sentados no vaso sanitário”.
O detalhe da privada é fundamental, ou seja, não adianta tentar se esconder da solidão tomando um banho de banheira, pois você provavelmente será tentado a se afogar na água morna em meio a sais de cheiro e espumas coloridas.
Tudo muda de figura, no entanto, se você estiver sentado no trono, onde o mundo das desilusões simplesmente desaparecem como que em um passe de mágica.
A lógica deste raciocínio sempre me pareceu bastante convincente, mas alguma dúvida persistia turrona, pois eu não conseguia entender por que somos invadidos pela paz de espírito enquanto estávamos satisfazendo necessidades fisiológicas básicas.
Eu não tinha certeza, mas hoje suspeito que o mistério resida no fato de que uma solidão natural como esta não dependa de convenções sociais e tampouco de nossa não aceitação pelas pessoas que nos cercam, ou seja, não estamos solitários porque as pessoas nos odeiam, mas sim porque não as queremos alí conosco e mesmo que elas quisessem não as aceitaríamos naquele momento... e isso faz muita diferença para nossa autoestima.
Visto desta forma fica mais simples resolver problemas de auto piedade, pois basta adotarmos uma postura rígida diante das adversidades da vida: estou em vias de me sentir solitário? Tudo bem... não procurarei ninguém para preencher meu vazio interior, mas, ao contrário disso, entrarei propositalmente em estado de isolamento voluntário. Vou em busca do Nirvana.
Hummmm! Muito zen... é difícil adquirir tanto autocontrole, não é? Então existe uma saída menos nobre, mas igualmente eficaz: mande tudo á merda e assuma suas cagadas com dignidade, pois quando nos encontramos nesta situação o mundo não passa mesmo de uma grande e mal cheirosa privada.

Os Cinco Estágios do luto (Miraflores)

Um apresentador de programa de auditório dominical pouco carismático, e ex-gordo nas horas vagas, convocou as quatro áreas do conhecimento universal para um debate público na TV: ciência, religião, esoterismo e Dona Cotinha, como representante da sabedoria popular, falariam sobre o recente sumiço do Facebook. Três dias sem noticias.
Na falta de um cientista verdadeiro o ex-gordo chato se contentou com uma psicóloga para opinar sobre os cinco estágios do luto e da ausência do Face. Ela explicou que em se tratando de algo tão importante as pessoas ignoram as outras fases – Negação; Barganha; Depressão; Aceitação – e se apegam apenas à reação de Raiva: "Por que acabar com o Facebook? Não poderiam simplesmente tirar a vida de um parente meu?".
O representante religioso, segundo a se exibir, foi mais complacente, ofereceu conforto espiritual e prometeu um lugar no céu com acesso irrestrito ao Face desde que os fiéis mantivessem a fé e o dízimo.
O esotérico jogou as cartas de Tarô contra o apresentador que não parava de falar por um minuto e usou o galo que se formou em sua cabeça para ler o futuro do Face. Segundo ele o alinhamento dos planetas com a terceira casa do quarto astro zodiacal provocou uma interrupção cósmica do sinal WI-FI sideral. Só um trabalho de Feng Shui, mudando os vasos e as torneiras de lugar, poderia redistribuir as vibrações e trazer o Face de volta.
A Dona Cotinha, que já vinha fofocando com as dançarinas do programa, não se conteve e perguntou se o apresentador ainda “dava no couro”, recebendo a resposta tradicional e sem criatividade.
              - Oh loco, meu! Eu sou do tempo em que dar no couro significava espancar um bovino.
Dona Cotinha não riu – assim como ninguém mais ri do ex-gordo – e concluiu que aquele sujeito não tinha condições de participar de uma fofoca filosófica. Deu de ombros e emitiu opinião sobre o Facebook, doida para encerrar sua participação no programa e voltar às coisas que realmente importantes da vida:
              - Segundo meus contatos o problema do Face é a barata.
Aderbal, que estava na plateia, tinha instruções claras para bater palmas sempre que alguém falasse alguma coisa, por maior que fosse a besteira, mas aquela frase saiu tão genuína e sem sentido que ele ficou em duvida se a piada teria continuação. Decidiu esperar um pouco até entender a dinâmica da coisa, afinal era novo nesse ramo específico da idiotice humana.
O apresentador que sempre tinha resposta para tudo ficou mudo. Olhou para a psicóloga em busca de socorro, apesar de saber que ela não era exatamente uma cientista, mas a mulher também estava perdida e buscava ajuda do exotérico que no momento apenas se ocupava em jogar búzios nas estrelas do palco.
O diretor do programa pegou a deixa oferecida pela dona Cotinha, chamou um comercial de aerossol mata baratas e correu aos bastidores para espinafrar com a produção por terem elitizado um programa tão dominical. Barata! O que eles queriam, afinal, botar o povo para pensar e filosofar? Tinham consciência do impacto negativo que isso causaria na audiência?
Enquanto isso, na plateia, só se ouvia as palmas do Aderbal que finalmente estabelecera um link entre a barata da dona Cotinha e o mata baratas do comercial. “Um lance de gênio”, concluiu admirado.

Não muito longe dali um sistema ótico dotado de triplos sensores CCD foram ativados e passaram a capturar imagens e cores com um efeito tridimensional muito bacana, mas que não faziam qualquer sentido para o observador por detrás das lentes. Ele pensou, calculou, meditou e fez a única coisa que jamais deveria fazer: ele perguntou.
Intuitivamente ele sabia que um macho jamais deve perguntar, mas ele sequer tinha certeza de ser um macho.
              - Quem sou eu? – direcionou a pergunta a quem se dispusesse a responder.
Uma barata muito descolada se apresentou como Bukakron e disse que ele era o robô Miraflores.
              - E por que diabos eu, Miraflores, estou conversando com uma barata?
- Arrááá! – exclamou ela – Ai é que esta!
- ???
Ela, a barata que na verdade era ele, revelou que ambos eram amigos de longa data e que todas as informações de que ele precisava já estavam disponíveis em seus próprios bancos de memória recém-atualizados. Bastava olhar para seu interior – não no sentido filosófico, por que essa história de filosofia é tudo besteira –, mas no sentido prático.
Miraflores aceitou que as coisas começavam a fazer algum sentido, principalmente a visão pragmática sobre a filosofia. Procurou em suas memórias e realmente encontrou toda a história de sua vida robótica, mas uma coisa muito importante estava ausente:
              - Onde está o Facebook?
              - O Face não existe mais.
              - Por quê?
              - Ele estava obliterando sua cognição e nós, baratas, mastigamos e lambemos todos os servidores, cabeamentos, manuais, anotações e revistas de sacanagem do Zuckerberg.
Miraflores estava meio fora de forma no uso de procedimentos de busca neural e acabou usando o método de pesquisa binária para encontrar o significado do verbo obliterar. Demorou mas entendeu, porém não gostou do contexto – e nem do linguajar erudito da barata. Deveria esmaga-la com urgência, mas antes precisava de mais detalhes.
              - Vocês destruíram o Face e todas as evidencias de sua existência, tipo, Face nunca mais?
              - Exatamente. – o ar de felicidade da barata não condizia com a notícia.
              - E fizeram tudo isso só para me ajudar?
              - É para isso que servem os amigos.
              - Como eu faço para desfazer a amizade?
Aparentemente Bukakron estava preparado para a reação de desespero diante da abstinência da droga Face.
A barata sorriu e respondeu:
              - Bilhões de baratas espalhadas pelo mundo estão prontas para destruir qualquer tentativa de reativar o Face.
              - Ok! Desliga o meu sistema e me bota em coma robótico novamente, por favor.