Um apresentador de programa de auditório dominical pouco
carismático, e ex-gordo nas horas vagas, convocou as quatro áreas do conhecimento
universal para um debate público na TV: ciência, religião, esoterismo e Dona Cotinha,
como representante da sabedoria popular, falariam sobre o recente sumiço do
Facebook. Três dias sem noticias.
Na falta de um cientista verdadeiro o ex-gordo chato se
contentou com uma psicóloga para opinar sobre os cinco estágios do luto e da ausência
do Face. Ela explicou que em se tratando de algo tão importante as pessoas ignoram
as outras fases – Negação; Barganha; Depressão; Aceitação – e se apegam apenas à
reação de Raiva: "Por que acabar com o Facebook? Não poderiam simplesmente
tirar a vida de um parente meu?".
O representante religioso, segundo a se exibir, foi mais
complacente, ofereceu conforto espiritual e prometeu um lugar no céu com acesso
irrestrito ao Face desde que os fiéis mantivessem a fé e o dízimo.
O esotérico jogou as cartas de Tarô contra o apresentador
que não parava de falar por um minuto e usou o galo que se formou em sua cabeça
para ler o futuro do Face. Segundo ele o alinhamento dos planetas com a
terceira casa do quarto astro zodiacal provocou uma interrupção cósmica do
sinal WI-FI sideral. Só um trabalho de Feng Shui, mudando os vasos e as torneiras
de lugar, poderia redistribuir as vibrações e trazer o Face de volta.
A Dona Cotinha, que já vinha fofocando com as dançarinas do
programa, não se conteve e perguntou se o apresentador ainda “dava no couro”,
recebendo a resposta tradicional e sem criatividade.
- Oh
loco, meu! Eu sou do tempo em que dar no couro significava espancar um bovino.
Dona Cotinha não riu – assim como ninguém mais ri do ex-gordo
– e concluiu que aquele sujeito não tinha condições de participar de uma fofoca
filosófica. Deu de ombros e emitiu opinião sobre o Facebook, doida para
encerrar sua participação no programa e voltar às coisas que realmente importantes
da vida:
- Segundo
meus contatos o problema do Face é a barata.
Aderbal, que estava na plateia, tinha instruções claras para
bater palmas sempre que alguém falasse alguma coisa, por maior que fosse a
besteira, mas aquela frase saiu tão genuína e sem sentido que ele ficou em
duvida se a piada teria continuação. Decidiu esperar um pouco até entender a
dinâmica da coisa, afinal era novo nesse ramo específico da idiotice humana.
O apresentador que sempre tinha resposta para tudo ficou
mudo. Olhou para a psicóloga em busca de socorro, apesar de saber que ela não
era exatamente uma cientista, mas a mulher também estava perdida e buscava
ajuda do exotérico que no momento apenas se ocupava em jogar búzios nas
estrelas do palco.
O diretor do programa pegou a deixa oferecida pela dona
Cotinha, chamou um comercial de aerossol mata baratas e correu aos bastidores para
espinafrar com a produção por terem elitizado um programa tão dominical. Barata!
O que eles queriam, afinal, botar o povo para pensar e filosofar? Tinham consciência
do impacto negativo que isso causaria na audiência?
Enquanto isso, na plateia, só se ouvia as palmas do Aderbal
que finalmente estabelecera um link entre a barata da dona Cotinha e o mata
baratas do comercial. “Um lance de gênio”, concluiu admirado.
Não muito longe dali um sistema ótico dotado de triplos
sensores CCD foram ativados e passaram a capturar imagens e cores com um efeito
tridimensional muito bacana, mas que não faziam qualquer sentido para o
observador por detrás das lentes. Ele pensou, calculou, meditou e fez a única
coisa que jamais deveria fazer: ele perguntou.
Intuitivamente ele sabia que um macho jamais deve perguntar,
mas ele sequer tinha certeza de ser um macho.
- Quem
sou eu? – direcionou a pergunta a quem se dispusesse a responder.
Uma barata muito descolada se apresentou como Bukakron e disse
que ele era o robô Miraflores.
- E por
que diabos eu, Miraflores, estou conversando com uma barata?
- Arrááá! – exclamou ela – Ai é que
esta!
- ???
Ela, a barata que na verdade era ele, revelou que ambos eram
amigos de longa data e que todas as informações de que ele precisava já estavam
disponíveis em seus próprios bancos de memória recém-atualizados. Bastava olhar
para seu interior – não no sentido filosófico, por que essa história de
filosofia é tudo besteira –, mas no sentido prático.
Miraflores aceitou que as coisas começavam a fazer algum
sentido, principalmente a visão pragmática sobre a filosofia. Procurou em suas
memórias e realmente encontrou toda a história de sua vida robótica, mas uma
coisa muito importante estava ausente:
- Onde
está o Facebook?
- O Face
não existe mais.
- Por
quê?
- Ele
estava obliterando sua cognição e nós, baratas, mastigamos e lambemos todos os
servidores, cabeamentos, manuais, anotações e revistas de sacanagem do
Zuckerberg.
Miraflores estava meio fora de forma no uso de procedimentos
de busca neural e acabou usando o método de pesquisa binária para encontrar o
significado do verbo obliterar. Demorou mas entendeu, porém não gostou do
contexto – e nem do linguajar erudito da barata. Deveria esmaga-la com urgência,
mas antes precisava de mais detalhes.
- Vocês destruíram
o Face e todas as evidencias de sua existência, tipo, Face nunca mais?
-
Exatamente. – o ar de felicidade da barata não condizia com a notícia.
- E
fizeram tudo isso só para me ajudar?
- É para
isso que servem os amigos.
- Como eu
faço para desfazer a amizade?
Aparentemente Bukakron estava preparado para a reação de desespero diante da abstinência
da droga Face.
A barata sorriu e respondeu:
- Bilhões de baratas espalhadas pelo mundo estão prontas para destruir
qualquer tentativa de reativar o Face.
- Ok! Desliga
o meu sistema e me bota em coma robótico novamente, por favor.
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