quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Os Cinco Estágios do luto (Miraflores)

Um apresentador de programa de auditório dominical pouco carismático, e ex-gordo nas horas vagas, convocou as quatro áreas do conhecimento universal para um debate público na TV: ciência, religião, esoterismo e Dona Cotinha, como representante da sabedoria popular, falariam sobre o recente sumiço do Facebook. Três dias sem noticias.
Na falta de um cientista verdadeiro o ex-gordo chato se contentou com uma psicóloga para opinar sobre os cinco estágios do luto e da ausência do Face. Ela explicou que em se tratando de algo tão importante as pessoas ignoram as outras fases – Negação; Barganha; Depressão; Aceitação – e se apegam apenas à reação de Raiva: "Por que acabar com o Facebook? Não poderiam simplesmente tirar a vida de um parente meu?".
O representante religioso, segundo a se exibir, foi mais complacente, ofereceu conforto espiritual e prometeu um lugar no céu com acesso irrestrito ao Face desde que os fiéis mantivessem a fé e o dízimo.
O esotérico jogou as cartas de Tarô contra o apresentador que não parava de falar por um minuto e usou o galo que se formou em sua cabeça para ler o futuro do Face. Segundo ele o alinhamento dos planetas com a terceira casa do quarto astro zodiacal provocou uma interrupção cósmica do sinal WI-FI sideral. Só um trabalho de Feng Shui, mudando os vasos e as torneiras de lugar, poderia redistribuir as vibrações e trazer o Face de volta.
A Dona Cotinha, que já vinha fofocando com as dançarinas do programa, não se conteve e perguntou se o apresentador ainda “dava no couro”, recebendo a resposta tradicional e sem criatividade.
              - Oh loco, meu! Eu sou do tempo em que dar no couro significava espancar um bovino.
Dona Cotinha não riu – assim como ninguém mais ri do ex-gordo – e concluiu que aquele sujeito não tinha condições de participar de uma fofoca filosófica. Deu de ombros e emitiu opinião sobre o Facebook, doida para encerrar sua participação no programa e voltar às coisas que realmente importantes da vida:
              - Segundo meus contatos o problema do Face é a barata.
Aderbal, que estava na plateia, tinha instruções claras para bater palmas sempre que alguém falasse alguma coisa, por maior que fosse a besteira, mas aquela frase saiu tão genuína e sem sentido que ele ficou em duvida se a piada teria continuação. Decidiu esperar um pouco até entender a dinâmica da coisa, afinal era novo nesse ramo específico da idiotice humana.
O apresentador que sempre tinha resposta para tudo ficou mudo. Olhou para a psicóloga em busca de socorro, apesar de saber que ela não era exatamente uma cientista, mas a mulher também estava perdida e buscava ajuda do exotérico que no momento apenas se ocupava em jogar búzios nas estrelas do palco.
O diretor do programa pegou a deixa oferecida pela dona Cotinha, chamou um comercial de aerossol mata baratas e correu aos bastidores para espinafrar com a produção por terem elitizado um programa tão dominical. Barata! O que eles queriam, afinal, botar o povo para pensar e filosofar? Tinham consciência do impacto negativo que isso causaria na audiência?
Enquanto isso, na plateia, só se ouvia as palmas do Aderbal que finalmente estabelecera um link entre a barata da dona Cotinha e o mata baratas do comercial. “Um lance de gênio”, concluiu admirado.

Não muito longe dali um sistema ótico dotado de triplos sensores CCD foram ativados e passaram a capturar imagens e cores com um efeito tridimensional muito bacana, mas que não faziam qualquer sentido para o observador por detrás das lentes. Ele pensou, calculou, meditou e fez a única coisa que jamais deveria fazer: ele perguntou.
Intuitivamente ele sabia que um macho jamais deve perguntar, mas ele sequer tinha certeza de ser um macho.
              - Quem sou eu? – direcionou a pergunta a quem se dispusesse a responder.
Uma barata muito descolada se apresentou como Bukakron e disse que ele era o robô Miraflores.
              - E por que diabos eu, Miraflores, estou conversando com uma barata?
- Arrááá! – exclamou ela – Ai é que esta!
- ???
Ela, a barata que na verdade era ele, revelou que ambos eram amigos de longa data e que todas as informações de que ele precisava já estavam disponíveis em seus próprios bancos de memória recém-atualizados. Bastava olhar para seu interior – não no sentido filosófico, por que essa história de filosofia é tudo besteira –, mas no sentido prático.
Miraflores aceitou que as coisas começavam a fazer algum sentido, principalmente a visão pragmática sobre a filosofia. Procurou em suas memórias e realmente encontrou toda a história de sua vida robótica, mas uma coisa muito importante estava ausente:
              - Onde está o Facebook?
              - O Face não existe mais.
              - Por quê?
              - Ele estava obliterando sua cognição e nós, baratas, mastigamos e lambemos todos os servidores, cabeamentos, manuais, anotações e revistas de sacanagem do Zuckerberg.
Miraflores estava meio fora de forma no uso de procedimentos de busca neural e acabou usando o método de pesquisa binária para encontrar o significado do verbo obliterar. Demorou mas entendeu, porém não gostou do contexto – e nem do linguajar erudito da barata. Deveria esmaga-la com urgência, mas antes precisava de mais detalhes.
              - Vocês destruíram o Face e todas as evidencias de sua existência, tipo, Face nunca mais?
              - Exatamente. – o ar de felicidade da barata não condizia com a notícia.
              - E fizeram tudo isso só para me ajudar?
              - É para isso que servem os amigos.
              - Como eu faço para desfazer a amizade?
Aparentemente Bukakron estava preparado para a reação de desespero diante da abstinência da droga Face.
A barata sorriu e respondeu:
              - Bilhões de baratas espalhadas pelo mundo estão prontas para destruir qualquer tentativa de reativar o Face.
              - Ok! Desliga o meu sistema e me bota em coma robótico novamente, por favor.

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