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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Os Cinco Estágios do luto (Miraflores)

Um apresentador de programa de auditório dominical pouco carismático, e ex-gordo nas horas vagas, convocou as quatro áreas do conhecimento universal para um debate público na TV: ciência, religião, esoterismo e Dona Cotinha, como representante da sabedoria popular, falariam sobre o recente sumiço do Facebook. Três dias sem noticias.
Na falta de um cientista verdadeiro o ex-gordo chato se contentou com uma psicóloga para opinar sobre os cinco estágios do luto e da ausência do Face. Ela explicou que em se tratando de algo tão importante as pessoas ignoram as outras fases – Negação; Barganha; Depressão; Aceitação – e se apegam apenas à reação de Raiva: "Por que acabar com o Facebook? Não poderiam simplesmente tirar a vida de um parente meu?".
O representante religioso, segundo a se exibir, foi mais complacente, ofereceu conforto espiritual e prometeu um lugar no céu com acesso irrestrito ao Face desde que os fiéis mantivessem a fé e o dízimo.
O esotérico jogou as cartas de Tarô contra o apresentador que não parava de falar por um minuto e usou o galo que se formou em sua cabeça para ler o futuro do Face. Segundo ele o alinhamento dos planetas com a terceira casa do quarto astro zodiacal provocou uma interrupção cósmica do sinal WI-FI sideral. Só um trabalho de Feng Shui, mudando os vasos e as torneiras de lugar, poderia redistribuir as vibrações e trazer o Face de volta.
A Dona Cotinha, que já vinha fofocando com as dançarinas do programa, não se conteve e perguntou se o apresentador ainda “dava no couro”, recebendo a resposta tradicional e sem criatividade.
              - Oh loco, meu! Eu sou do tempo em que dar no couro significava espancar um bovino.
Dona Cotinha não riu – assim como ninguém mais ri do ex-gordo – e concluiu que aquele sujeito não tinha condições de participar de uma fofoca filosófica. Deu de ombros e emitiu opinião sobre o Facebook, doida para encerrar sua participação no programa e voltar às coisas que realmente importantes da vida:
              - Segundo meus contatos o problema do Face é a barata.
Aderbal, que estava na plateia, tinha instruções claras para bater palmas sempre que alguém falasse alguma coisa, por maior que fosse a besteira, mas aquela frase saiu tão genuína e sem sentido que ele ficou em duvida se a piada teria continuação. Decidiu esperar um pouco até entender a dinâmica da coisa, afinal era novo nesse ramo específico da idiotice humana.
O apresentador que sempre tinha resposta para tudo ficou mudo. Olhou para a psicóloga em busca de socorro, apesar de saber que ela não era exatamente uma cientista, mas a mulher também estava perdida e buscava ajuda do exotérico que no momento apenas se ocupava em jogar búzios nas estrelas do palco.
O diretor do programa pegou a deixa oferecida pela dona Cotinha, chamou um comercial de aerossol mata baratas e correu aos bastidores para espinafrar com a produção por terem elitizado um programa tão dominical. Barata! O que eles queriam, afinal, botar o povo para pensar e filosofar? Tinham consciência do impacto negativo que isso causaria na audiência?
Enquanto isso, na plateia, só se ouvia as palmas do Aderbal que finalmente estabelecera um link entre a barata da dona Cotinha e o mata baratas do comercial. “Um lance de gênio”, concluiu admirado.

Não muito longe dali um sistema ótico dotado de triplos sensores CCD foram ativados e passaram a capturar imagens e cores com um efeito tridimensional muito bacana, mas que não faziam qualquer sentido para o observador por detrás das lentes. Ele pensou, calculou, meditou e fez a única coisa que jamais deveria fazer: ele perguntou.
Intuitivamente ele sabia que um macho jamais deve perguntar, mas ele sequer tinha certeza de ser um macho.
              - Quem sou eu? – direcionou a pergunta a quem se dispusesse a responder.
Uma barata muito descolada se apresentou como Bukakron e disse que ele era o robô Miraflores.
              - E por que diabos eu, Miraflores, estou conversando com uma barata?
- Arrááá! – exclamou ela – Ai é que esta!
- ???
Ela, a barata que na verdade era ele, revelou que ambos eram amigos de longa data e que todas as informações de que ele precisava já estavam disponíveis em seus próprios bancos de memória recém-atualizados. Bastava olhar para seu interior – não no sentido filosófico, por que essa história de filosofia é tudo besteira –, mas no sentido prático.
Miraflores aceitou que as coisas começavam a fazer algum sentido, principalmente a visão pragmática sobre a filosofia. Procurou em suas memórias e realmente encontrou toda a história de sua vida robótica, mas uma coisa muito importante estava ausente:
              - Onde está o Facebook?
              - O Face não existe mais.
              - Por quê?
              - Ele estava obliterando sua cognição e nós, baratas, mastigamos e lambemos todos os servidores, cabeamentos, manuais, anotações e revistas de sacanagem do Zuckerberg.
Miraflores estava meio fora de forma no uso de procedimentos de busca neural e acabou usando o método de pesquisa binária para encontrar o significado do verbo obliterar. Demorou mas entendeu, porém não gostou do contexto – e nem do linguajar erudito da barata. Deveria esmaga-la com urgência, mas antes precisava de mais detalhes.
              - Vocês destruíram o Face e todas as evidencias de sua existência, tipo, Face nunca mais?
              - Exatamente. – o ar de felicidade da barata não condizia com a notícia.
              - E fizeram tudo isso só para me ajudar?
              - É para isso que servem os amigos.
              - Como eu faço para desfazer a amizade?
Aparentemente Bukakron estava preparado para a reação de desespero diante da abstinência da droga Face.
A barata sorriu e respondeu:
              - Bilhões de baratas espalhadas pelo mundo estão prontas para destruir qualquer tentativa de reativar o Face.
              - Ok! Desliga o meu sistema e me bota em coma robótico novamente, por favor.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A sombra de Miraflores

Miraflores já perdera muito tempo observando o universo ao seu redor e para variar um pouco decidiu olhar o próprio umbigo, mas, decepção total, robôs não tem umbigo.
Alternativa óbvia para estes casos seria, sem dúvida nenhuma, dedicar-se à própria sombra, afinal, ela fora sua companheira desde as primeiras publicações, lá nos idos de março de 2014.
"É isso" - concluiu Miraflores - "Vou levar minha sombra para passear pelo mundo".
E Miraflores começou a reler suas histórias antes de se lançar na vida louca novamente.

sábado, 10 de junho de 2017

Divino ano sabático



No Olimpo é comum que as divindades saiam para um ano sabático coletivo todas as vezes em que a tensão divina se aproxime de um ponto de ruptura, pois acredita-se que uma porradaria entre deuses seja muito ruim para a imagem de seres celestiais. Quase tão ruim quanto ver o próprio celular caindo dentro do vaso sanitário durante uma selfie (pior ainda se o ângulo da foto ficar de baixo para cima).

Novos estudos, entretanto, tem questionado a prática de se deixar durante um ano inteirinho o Olimpo nas mãos de um único deus de plantão (a base destes estudos leva em conta a besteira feita pelo deus da beleza que criou a humanidade em uma crise de baixa autoestima sob o pretexto de que precisava de uma opinião sincera sobre seu novo corte de cabelo).

Resumo da ópera: os deuses sairam para seu ano sabático em 2016 (depois de se xingarem mutuamente de coxinhas e petralhas) e ao retornar encontraram a porta do Olimpo aberta. Quer dizer, não estava apenas aberta. Estava escancarada.
O primeiro a entrar foi o deus da guerra que, com ar de poucos amigos, já foi perguntando com grosseria:
- Quem foi o deus de plantão durante este ano sabático?
- Foi o Baco – respondeu prontamente a deusa da sabedoria.
- Aquele bêbado?
Todos se entreolharam apreensivos.
A deusa do amor correu até a beirada do abismo de onde se obtém a melhor visão da terra dos homens e começou a chorar.
- Pessoal, acho que as bestas fugiram da prisão subterrânea e uma delas virou presidente dos Estados Unidos.
O deus do sol – todo bronzeado após 1 ano de férias literalmente bem curtidas – correu para conferir.
- Caraca, mano, fugiram mesmo... e tem uma destas bestas fingindo que é presidente do Brasil.
Poseidon, o deus dos mares, se esticou na ponta dos pés para conferir a situação e ficou lívido.
- Galera... não quero criar pânico, mas acho melhor a gente fechar o Olimpo e mudar de profissão, pois a partir de hoje ninguém mais vai acreditar em deuses.
- Por quê? – gritaram todos em uníssono.
- O Gilmar Mendes é ministro do STF e presidente do TSE no Brasil.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Aos olhos de Miraflores

              O robô Miraflores tinha acabado de encontrar a cura para o câncer pela terceira vez consecutiva, e descartado as três soluções por absoluta falta de papel de rascunho onde pudesse anotá-las, quando se deu conta de que precisava investir seu tempo em algo mais produtivo. Utilizou a física quântica para descobrir o maior segredo do universo, mas fez questão de esquecer rapidinho só para não ganhar fama de fofoqueiro, afinal segredo é segredo e não se fala mais no assunto. Entre um bocejo e outro localizou o continente perdido de Atlântida (uma decepção arquitetônica tão grande que nem merecia divulgação). Em um último esforço para fazer a coisa certa, fosse ela qual fosse, ele pesquisou e identificou o motivo do estranho fetiche do Bolsonaro pelos gays (e bota estranho nisso), mas constatou horrorizado que nem a humanidade e nem as baratas mereciam ser submetidas àquele tipo de desconforto sexual, emocional e do mal.
              “Pensar é perda de tempo”. – concluiu desanimado antes de abrir um dos olhos ao acaso.
Tecnicamente não existe um bom motivo para que robôs abram os olhos ao acaso, mas Miraflores não estava muito preocupado com os bons motivos e abriu assim mesmo.
Seria um fato corriqueiro se tivesse aberto o olho direito, pois é o tipo de olho que se pode abrir sem causar grandes comoções no universo. Poderia inclusive ter aberto o olho esquerdo, se fosse de seu agrado, mas jamais deveria ter exposto o terceiro olho daquela maneira. Ajña, o sexto chacra, sempre provoca frisson entre esotéricos e maconheiros portadores de neurônios defumados.
              A notícia do olho ímpar se espalhou rapidamente e os desocupados começaram a chegar ávidos por fazer selfies ao lado do robô supra-humano que, segundo eles, teria a capacidade de psicografar Mark Zuckerberg ainda vivo ou até mesmo mata-lo por telepatia em caso de extrema necessidade. Chegavam em caravanas ecumênicas, andando, caminhando ou mesmo a pé e sem reclamar da longa jornada que, não raro, durava longos 7 minutos – dependendo do tamanho do baseado que fumavam pelo caminho.
Muitos daqueles viajantes jamais teriam ousado distancias maiores que o espaço entre seus próprios quartos e o banheiro de suas casas se não fosse por uma boa causa. E mesmo assim orientados por uma App do celular e somente após informar efusivamente aos amigos do Facebook (quando o Facebook ainda funcionava, obviamente).
              A reação de todos na chegada era mais ou menos a mesma de qualquer um que chega a um local aonde pretendia chegar. Ninguém dizia “Puxa! Não era aqui que eu pretendia vir”, mas assim que avistavam o robô com um único olho aberto no meio da testa já iniciavam o murmúrio. “Mau agouro”, diziam uns. “Maledicência”, respondiam outros. “Mau gosto”, entoavam os estilistas italianos enquanto elaboravam modelos de óculos coloridos e com uma única lente bem no centro da armação. Lente antirreflexo, diga-se de passagem.
              A multidão de pessoas concentradas ao redor de Miraflores já chegava aos milhares (segundo a polícia militar), embora os organizadores contabilizassem milhões. Equipes de TV, radialistas e blogueiros selvagens se espancavam com microfones e mouses sem fio na tentativa de encontrar a posição ideal para capturar flagrantes do robô profeta.
              Alguns elementos desnorteados ainda ousavam interagir com frases minimalistas e desestruturadas que confundiam a gramática computadorizada:
              - E ai?
              - O que? – perguntava o robô tentando situar-se no diálogo.
              - O que o quê?
              - O que o que o quê?
              E a coisa podia durar infindáveis horas até que a bagana se consumisse por completo.
              Outros, simulando alguma expressão de inteligência, propunham charadas cósmicas mais incompreensíveis que as próprias frases sem verbo e nem sujeito:
              - É possível chegar à verdade, mestre?
              - A distancia só depende da velocidade e do tempo. – respondia o robô citando a mais elementar das equações que definem o movimento retilíneo e uniforme de um objeto.
              E o sujeito partia satisfeito por finalmente entender que o tempo estaria a seu favor se soubesse procurar a verdade com paciência.
              Tudo fluía sem maiores contratempos, apenas com um ou outro disco voador pilotado por Pandas verdes gigantes e testemunhado pela multidão lesada, até que a pergunta errada foi elaborada:
              - Quando teremos o Facebook de volta, mestre?
              Miraflores, que passava por uma fase de desintoxicação de redes sociais e ainda sofria com as crises agudas de abstinência, silenciou por alguns instantes diante da plateia ansiosa. Abriu o segundo olho (o da direita) e a multidão entoou um “Óóóóóó!” em Dó maior. Ele gostou do efeito e abriu o olho da esquerda, só para divertir a galera e tentar se esquecer da pergunta martirizante. Desta vez veio um “Aaaaaaaa” em Lá menor, mas a turba não se contentou e insistiu na pergunta:
              - O Facebook volta, mestre?
              Miraflores tentou dizer a verdade.
“Não sei” é o que deveria ter dito, mas seu projeto de infalibilidade robótica, que não lhe permitia não saber alguma coisa, o interrompeu no meio da frase contrariando sua vontade real:
              - Não... – foi a única palavra que conseguiu pronunciar com voz metalizada.
              Um bilhão mais sete pessoas ao redor do planeta morreram instantaneamente de ataque cardíaco (representantes do G7, os presidentes dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e do Canadá se recusaram a ser contabilizados junto com o restante da humanidade e morreram separados); outros quinhentos milhões de fanáticos por Facebook tiveram diarreia fulminante em meio a restaurantes, templos religiosos, bailes de formatura e encontros românticos e ainda tiveram de ouvir a piadinha dos amigos “que merda, hein?”; milhares de amantes ardorosos desmaiaram durante o sexo liberando suas felizes parceiras para se divertirem de verdade, só com o corpo dos machos (que era o que realmente lhes interessava).
              Miraflores vendo aquele pandemônio, pensando na cura do câncer e nas coisas maravilhosas que sua genialidade poderia fazer em favor da humanidade, titubeou por um momento. Preparou-se para explicar que ele poderia trazer o Facebook de volta, e muito mais, se conseguisse conter seu próprio vício em redes sociais, mas então se lembrou do Bolsonaro.

              - Foda-se a humanidade! – concluiu a frase e fechou os três olhos ao mesmo tempo.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Os deuses diante da inexorável morte daquilo que não tem vida

- Para, para, para! – ordenou uma voz enfática no meio da divina multidão.
Os deuses reunidos ao redor da tal voz, que além de parados também já estavam imóveis à beira do precipício de onde se tem a melhor visão da terra dos homens, decidiram parar novamente só para evitar confusão.

Após alguns segundos, cansados de ficar parados se entreolhando desconsertados, decidiram acrescentar um toque de rebeldia à situação e também ficaram pasmos. Tinham acabado de presenciar a morte de um robô e não sabiam como se posicionar diante da novidade.
Bichos e seres humanos não representam grandes emoções, afinal eles vêm morrendo há milhões de anos sem incomodar ninguém, quer dizer, às vezes fazem um pouco de drama antes de ficarem quietinhos em seus túmulos, mas um robô é totalmente diferente. Como um deus deveria reagir a isso? Chorando, comemorando, Twittando ou o que?

A tal voz retornou à cena e implicitamente abriu a possibilidade de pararem de ficar parados.
- Alguém pode me explicar o que esta acontecendo na terra dos homens?
- O Miraflores morreu. – arriscou a deusa da futilidade se abanando com uma revista Caras – Será que a gente poderia abrir um pouco essa rodinha para ventilar o ambiente?
- Eu vi que o robô morreu, mas quem deu permissão? Robôs simplesmente não morrem... não que eu saiba.
- Aposto que isso é coisa daquele deus da tecnologia! – gritou o deus da guerra limpando a ponta de seu porrete com uma flanela adornada com o símbolo da NRA. – Aliás, onde está ele?
- No banheiro. – respondeu a deusa da futilidade pegando a flanela do deus da guerra emprestada para enxugar o suor que escorria ao redor do pescoço – E por falar nisso, acho que aquele menino deve estar com o intestino solto... ele não sai do banheiro.
- É da idade, mas mandem o mensageiro dos deuses busca-lo... – ordenava a voz, quando foi interrompida.
- Eu estou aqui. – apresentou-se a figura alta, magra e improvável, vestindo uma toga xadrez prateada e com um enorme par de óculos emoldurando um rosto repleto de espinhas.
- Foi você que matou o Miraflores?
- Tecnicamente ele não está morto, embora também não esteja vivo.
O deus da guerra que acabara de recuperar a flanela molhada de suor se virou bruscamente.
- Você não vai começar com aquela palhaçada de gato de Schrödinger novamente, vai?
O deus da tecnologia estranhou que o brutamontes tivesse conhecimento daquela teoria quântica e ia fazer um comentário inapropriado quando avistou o porrete com cara de poucos amigos. Decidiu mudar de assunto.
- Não exatamente! – reduziu a arrogância ao menor nível permitido a um nerd – O Miraflores não teve suas estruturas físicas danificadas, mas sua memória e sua capacidade de processamento estão totalmente dedicadas ao Facebook. São praticamente inúteis para o universo e para ele mesmo.
- Faça de conta que eu não tenha a capacidade de entender a sua linha de raciocínio e explique melhor. – solicitou a deusa da futilidade entrando com roupa e tudo na divina fonte.
O deus agrário levantou uma sobrancelha de curiosidade e foi socorrido pela deusa da beleza com um sussurro no ouvido “são os calores da menopausa”.
- O Facebook é uma droga tão poderosa que o viciado dedica todas as suas energias ao consumo desenfreado. – o ar de condescendência do deus nerd era quase um atestado de debilidade para quem ouvia – O escravo desse ópio virtual não se preocupa mais com alimentação, higiene pessoal, socialização e nem mesmo com os próprios movimentos... usa todas as suas energias para curtir coisas fofas, compartilhar mensagens maravilhosas e totalmente sem sentido além de postar suas próprias genialidades na esperança do reconhecimento público.
- Mas por que eles fazem isso? – a deusa da futilidade parecia confusa com a explicação e mais ainda com as roupas encharcadas que expunham exageradamente suas formas – Por que abrem mão dos outros prazeres da vida?
- A dependência psicológica da droga Face é tão poderosa que seus sistemas de recompensa e prazer superam todos os outros prazeres. – o deus moleque estava quase desenhando as palavras para facilitar a compreensão – O viciado só precisa acreditar que alguém curtiu um post seu para obter uma infinita descarga de prazer.
O deus da sabedoria que já tinha entendido tudo resolveu abreviar o sofrimento didático do jovem deus.
- OK! Então basta reiniciar o sistema do Miraflores e tudo volta ao normal, certo?
- Infelizmente não. O vício em Facebook está entranhado na partição primária do robô. Mesmo que a gente apague a memória e reinicie o sistema a partir do zero... mesmo assim ele vai voltar ao Face e se entupir de droga novamente.
- Entendi. É igual o vício em álcool.. não existem ex-alcoólatras... mesmo após anos, uma única dose pode resgatar o vício. – um deus norueguês de nome impronunciável deu de ombros e partiu para o pragmatismo explicito bem característico dos nórdicos – Como se recicla Miraflores então? Basta enterrar o corpo e as bactérias se incumbem de reinserir seus átomos ao pó do universo, certo?
- Bem... não exatamente, por que não existe reciclagem de robôs... assim como não se recicla computadores, nem baterias e nenhum lixo tecnológico.
O deus da guerra que há bastante tempo esperava pela oportunidade de exibir testosterona deu um berro.
- Filho da puta! – ergueu o porrete ameaçador – Desde o começo eu já sabia que você ia ferrar com a gente de alguma maneira. Vamos ordenar que os black block arrebentem com todo o aparato tecnológico do universo.
- Não é uma boa ideia – retrucou o deus da sabedoria – Ainda temos a questão das baratas para resolver, lembram? Miraflores era o nosso intermediário nas negociações de paz.

O silencio caiu sobre os deuses com a mesma velocidade com que desaba a fama de um participante do BBB após o termino do reality show.
O deus da sabedoria saboreou a preciosidade de um momento sem ruído e continuou.
- Alguém tem alguma proposta para eliminar a ameaça sem precisar destruir alguma coisa? – olhou deliberadamente para o deus da guerra.
- Eu tenho. – a voz nerd ecoou um pouco mais arrogante que o indicado para o momento.
O porrete levantou no ar, a deusa da futilidade começou a se abanar freneticamente com uma matéria sobre "mulheres ricas", a deusa da beleza derrubou um espelho no chão, o deus do vinho entornou uma jarra inteira sem parar para respirar, o silencio se esqueceu que existia e o deus da sabedoria começou a bater com a cabeça contra uma divina parede se odiando por ser um deus e não um simples camponês a quem é permitido sentar a mão na cara de um moleque insolente que esta prestes a fazer uma besteira enorme contra o universo.

sábado, 29 de março de 2014

Adeus Miraflores

A praia estava excepcionalmente repleta de lixo devido ao feriado e o contingente de jovens que desfilava a esmo, apenas para exibir suas formas saradas, contrastava com aqueles que já haviam apaziguado a própria ansiedade ao lado de um parceiro, mas independentemente do status de relacionamento todos se divertiam com latas de refrigerantes ou cerveja e ignoravam o curso do relógio que insistia em cronometrar a preguiça do luar se pondo atrás do horizonte apenas para dar lugar ao sol que surgia no lado oposto.
Duas figuras solitárias se mantinham alheias à multidão e apesar de não serem tão diferentes entre si, alguns detalhes sutis revelavam suas singularidades: um era arredondado e o outro achatado; o primeiro reluzia prateado enquanto que o segundo estava mais para o marrom cocô; ambos tinham antenas, sendo uma dura e lisa e a outra flexível e peluda; um era robô e o outro barata; o robô se chamava Miraflores e a barata Bukakron.

Uma barata fêmea emergiu totalmente embriagada de uma garrafa de cerveja e levantou a asa esquerda em um movimento calculado, exibindo as pernas peludas em direção a Bukakron.
- Essa eu já peguei. – gabou-se o cascudo lambendo o torrão de açúcar que fazia sua cabeça há mais de uma hora.
- Tô ligado. – respondeu o robô viajando quase inconsciente nas páginas do Facebook.
Era o dia de se alienarem com drogas pesadas e cada um o fazia a seu modo.
- Aliás, eu já peguei a praia inteira. – a barata cheirou um grãozinho doce que caiu ao seu lado.
- Você disse. – Miraflores riu de um meme sem graça, turvando levemente sua racionalidade robótica.
- Falei que são todas da minha família?
- Falou.
- Você é um Deus bacana, sabia?
- Ahã. – Miraflores nem contestava mais aquela insistência do outro em considera-lo Deus.
- Você deixa eu lamber pedra ao seu lado, transar com minhas 799 irmãs... ou seriam irmãos? Ah, sei lá, tem tanto gay na minha família que já nem sei mais quem é o que.
- Sei.
- Sério? Então conta ai... quem é o que?
- Não! Eu disse que sei o que você quer dizer.
- Tá vendo... isso é que é um Deus de boa... entende a gente.
- Você já pensou no Big Bang, Bukakron? – parecia insanidade conversar a sério com uma barata, principalmente enquanto se drogavam, mas precisava calar a boca do infeliz de alguma maneira.
- Hummmmm... é um dos meus irmãos?
- Não, é o instante zero do nosso universo. O momento em que tempo e espaço surgiram do nada absoluto.
- Que loco... fala mais ai que eu tô curtindo. – o barata macho deu mais uma lambida no torrão de açúcar, segurou a respiração durante alguns segundos e expirou revirando as antenas de prazer.
- Eu suspeito que o Big Bang tenha ocorrido como resultado da explosão de um universo anterior que não suportou a própria quantidade de baratas e resolveu dividi-las com os vizinhos.
- Um enorme balão inflável repleto de baratas, ao invés de gás... é lindo isso, hein?
O robô estranhou que o outro tivesse compreendido a explicação e ainda conseguisse visualizar com tanta clareza. Será que existia inteligência dentro daquela carapaça?
Miraflores curtiu mais um bichinho fofo no Face, suspirou de prazer alienante, restaurou a consciência a um limiar mínimo e resolveu aprofundar a conversa com o companheiro.
- Você tem ideais, Bukakron?
- Pode crê cumpadi... tô cheio das ideias aqui... só que elas vem e vão quando eu tô na brisa.
- Não, eu disse ideais e não ideias, mas tudo bem, fala um pouco mais sobre essas ideias.
- Claro meu Deus, cola ai que eu te conto – olhou para os lados e falou em confidencialidade – tenho pensado muito na morte, sabia?
- Sério? Tipo o que?
- Sei lá. Desde que você me ressuscitou eu não consigo tirar aquilo da cabeça. Acho que tenho medo.
- Da morte?
- Não. De morrer.
- Uai, mas não é a mesma coisa?
Bukakron olhou para seu Deus um pouco decepcionado.
- Claro que não. Morrer é o ato, enquanto que a morte é o estado. – parecia tão óbvio que despontou uma dúvida sobre a divindade ou a inteligência do robô... ou as duas coisas.
- O que você sentiu?
- Quando morri ou quando estava morto?
Aquela conversa estava ficando nebulosa e Miraflores olhou novamente para a página do Face se perguntando se haveria exagerado na carga de emburrecimento. Concluiu que ainda aguentava mais uma dose. Leu uma frase linda onde Shakespeare condenava o uso da bomba atômica... três séculos antes da descoberta da fissão nuclear... deu de ombros e compartilhou a genialidade em sua página... gemeu de prazer.
- E aí?
- O que?
- O lance da morte.
- Ah, sim! – Miraflores resolveu começar tudo do zero – Por que você tem medo de morrer?
- Por que dói, oras. E vai saber como vou morrer da próxima vez.
- Da morte você não tem medo?
- Nããã... – lambeu uma pedra de sal por engano e engasgou extasiado – a morte é sussa.
- Tipo o que? – Miraflores curtiu uma mensagem religiosa e se conteve para não chorar de emoção.
- Ah! Nem sei... a última coisa que me lembro foi o chinelo vindo na minha direção e em seguida você já estava na minha frente. – deu uma lambida na lataria do robô pensando que fosse de açúcar.
- Não teve luz branca? – o robô compartilhou a mensagem de uma criança desaparecida na arca de Noé e se contorceu orgulhoso pelo próprio ato de bondade.
- Nem luz branca, nem de cor nenhuma – Bukakron botou o torrão de sal e a pedra de açúcar para se lamberem entre si. – mas por que essas perguntas agora?
- É que eu nunca tinha pensado nisso... acho que é por que robôs não morrem... ou será que morrem? Hummmm? – Miraflores gemeu enquanto escrevia uma frase magnífica sobre a beleza interior de um coco maduro e publicava em sua linha do tempo.
O robô arriscou a mais pesada das viagens... aquela que não oferecia retorno... deixou sua marca nas redes virtuais e abriu as portas do inferno.
- Eu sei lá, nunca fui robô. – Bukakron respodeu enquanto dava uma bronca na pedra de açúcar que se derretia toda para uma poça d´agua estranha e metida a conquistadora.
- Eu já fui... robô... – Miraflores teve seu último e infinito orgasmo desfalecendo inerte ao descobrir que haviam curtido sua publicação na linha do tempo.
Bukakron se assustou quando o robô amigo desabou ao seu lado. Tentou reativar seus circuitos com o pouco conhecimento adquirido sobre engenharia robótica, mas percebeu que o Facebook já havia comprometido todo o sistema. Não havia mais espaço para qualquer outro tipo de raciocínio ou processamento paralelo.
- O que aconteceu? – perguntou a barata bêbada e peluda se desmanchando em prantos ao lado de Bukakron.
- Miraflores morreu de overdose... de Facebook... acho que ele se suicidou.
O sol despontando além do oceano derramou sua luz fria sobre a carcaça inerte de um pequeno robô chamado Miraflores. 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Miraflores a um passo da humanidade

Data universal: 13.73.9.299.792.458.3
Data terráquea: 28/03/2014 dC
A medida de tempo minimalista usada pelos terráqueos é totalmente desaconselhável para o restante do universo que sequer conhece C. Usa-la fora da Terra teria o mesmo efeito que entregar um aparelho celular a um adolescente e pedir que ele realize uma chamada telefônica sem usar qualquer ferramenta digital.

Mas vamos ao que interessa.

Caro leitor,
Se você está acessando este post só pode significar três coisas: eu posso estar morto e alguém se esqueceu de apagar as besteiras que eu escrevi; ou posso estar vivo, que é minha opção preferida; ou ainda, posso estar em estado de suspensão criogênica e neste caso dê uma ligadinha para a empresa que mantem meu tanque em funcionamento para perguntar se eles estão pagando a conta de energia elétrica em dia, por favor.

Eu observo seres vivos pelo universo afora – inanimados, animados ou desanimados – e já se passaram quase 4 bilhões de anos desde que estive aqui pela primeira vez.
A partir de então já voltei em inúmeras oportunidades e minha tarefa está se tornando cada vez mais difícil, pois hoje nem aquilo que tem vida parece estar vivo e vice-versa. Aliás, já comentei sobre isso em “Vivo ou se fazendo de morto”.
Agora, porém, minha missão atingiu um grau de complexidade que confesso estar acima de minha capacidade profissional: fui enviado a esta região remota da galáxia com o propósito de descobrir se um determinado robô – Miraflores – já atingiu o estágio de ser vivo ou ainda pode ser mantido na mesma categoria dos expectadores de programa humorístico das noites de sábado.

Vamos aos fatos determinantes para minha análise:
- Miraflores foi criado para ser um robô observador de flores – que simpático... eu também sou observador.
- Em seguida ele foi manipulado pela genética computacional para assumir a personalidade de um Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.
- Em busca de melhoria para essa genética veio a adolescência de Miraflores.
- Miraflores subiu na vida e virou vice-presidente.
- Ficou desempregado, carregou malas e se envolveu em crimes bárbaros.

Tudo isso é muito humano e leva a crer que além de humano ele também já seja um ser vivo, mas um detalhe ainda precisa ser consolidado: o que será que Miraflores pensa sobre o corte de cabelo do ditador da Coreia do Norte?

quinta-feira, 27 de março de 2014

Emergência sim, estresse não

O alarme disparou trazendo calmaria ao mundo dos deuses. Tudo muito diferente dos velhos tempos em que as mínimas catástrofes universais logo resultavam em correria e gritos de desespero. Não mais!

Obviamente nem todas as entidades celestiais se acostumaram ao novo alerta de perigo entoado por cânticos sagrados. Os mais antigos preferiam o bom e velho ribombar de sinos histéricos, mas a gestão recém-empossada da CIPA decidiu inovar e determinou que barulho estressante não condizia com a serenidade do lugar e adotou o conceito de “alerta responsável” para denotar urgência. O lema da nova campanha de prevenção a acidentes deixava bem claro que “Emergência sem estresse é tudo de bom”.

A oração cantada já entrava em sua terceira repetição e, no entanto poucas divindades haviam deixado o templo principal, forçando as brigadas de incêndio a percorrerem minuciosamente cada salão sagrado em busca de deuses rebeldes que resistiam a abandonar o edifício. A entonação dos Monges Tenores Universais era tão relaxante que quando finalmente chegavam ao pátio principal perguntavam bocejando se aquilo era uma simulação.
- Não! Não é uma simulação.
- O que aconteceu então?
- O cara fez merda.
- Que “cara”? Que “fez”? Que “merda”?
- Não... “fez” é o verbo da frase.
- Ah, é! Eu ainda estou meio dormindo.
- Mas então, o tal do Miraflores provocou a maior orgia desde o Festival de Woodstock.
- Os humanos estão abandonando as redes virtuais? Isso é ótimo, deixa eles se divertirem como nos velhos tempos.
- Humanos? Não! Orgia de baratas.
- Baratas? E desde quando sexo entre baratas é motivo de alarde.
- Desde que TODAS procriaram ao mesmo tempo e inundaram o universo de baratinhas.
- Ainda não vejo motivo para alarde. Manda o Deus da tecnologia, aquele nerd esquisito, resolver o problema.
- Sim, mas foi ele mesmo quem se desesperou e acionou o alarme... se bem que eu também estava doido para testar esse novo sistema.
- Ele rompeu o lacre da caixinha vermelha? Como ele quebrou o vidrinho? Com a mão?
- Não, ele usou aquele martelinho que fica preso à caixinh...
- SOCOOOOOROOOOOO! – gritou o Deus das artes dramáticas completamente nu – Uma barata entrou na minha toga.
- É... acho que temos motivo para alarde sim.
O grito do desesperado foi mais efetivo que o sistema de “Emergência sem estresse” e o pátio ficou pequeno de um momento para o outro com tantos deuses se perguntando o que tinha acontecido.
O Deus do vinho sugeriu que aproveitassem a presença maciça de divindades para fazer um brinde, mas todos mandaram que ele calasse a boca.
Um anjo matava baratas com a própria harpa ao melhor estilo rockeiro performático quando a coisa pegou fogo.
O jarro grego que abastecia a divina fonte de agua cristalina subitamente começou a verter baratas e as ninfas que nadavam graciosas e sedutoras se agarraram aos sátiros tal e qual peões de rodeio em final de campeonato.
O Deus da guerra queria encher o peladão de porrada, a deusa da beleza, que era alérgica a baratas, ficou toda empipocada, o deus do mundo subterrâneo, se sentindo em casa, começou a dançar e o deus do empreendedorismo fazia cálculos em busca de uma formula para ganhar dinheiro com aquilo.
Foi quando as baratas, hipnotizadas por uma doce melodia de flauta, começaram a se atirar no desfiladeiro em direção à terra dos homens.
Todos correram atônitos para a divina borda e se perguntaram desconfiados.
- Quem fez o milagre?
- Fui eu – respondeu a figura alta, magra e improvável, vestindo uma toga xadrez prateada e um enorme par de óculos emoldurando um rosto repleto de espinhas que remetia a um alienígena nerd.
- Como?
- Vocês não conhecem o Flautista de Hamelin? Pois eu lhes apresento o Flautista Miraflores.
- Sim, mas ele hipnotizava ratos e não baratas.
- Apenas uma questão de ajuste na tonalidade.
- Bom! – resmungou o deus do vinho ainda magoado por recusarem seu brinde – Já que o problema está resolvido vamos dormir.
- Tem... um probleminha... pequeno, mas é um probleminha – falou o deus da tecnologia com a voz mais relutante jamais permitida a uma divindade.
O deus da guerra escolheu um porrete ao acaso. Só por via das dúvidas, para o caso de não concordar que o problema fosse tão pequeno assim.
- O Miraflores impôs algumas condições para resolver a infestação cascuda.
O deus da guerra levantou o porrete.
- Eu sabia! – gritou ameaçador – Vou encher esse veado de porrada e depois acabo com aquele robô de merda.
- Não é uma boa ideia – interviu o deus da sabedoria – Ainda temos as baratas pairando no ar.
- Elas já estão mortas mesmo... não há mais problema.
- Não foi uma figura de linguagem. Elas “ESTÃO PAIRANDO NO AR”... desceram voando para a terra dos homens e podem voltar a qualquer momento. Você nunca leu a história do Flautista de Hamelin?
O porrete congelou.
- Chamem o sindicato dos deuses para intermediar as negociações – sugeriu o deus da sabedoria – e você – apontou para o Deus Nerd – pare de fazer milagres, pelo amor de Deus!

quarta-feira, 26 de março de 2014

O Barato de Miraflores

Barata é o grande desafio universal, quer dizer, não “a” barata em si, mas seu estilo de vida, que, aliás, muito se assemelha aos costumes de certos jovens humanos de classe média alta.
Não estudam, não trabalham e fazem da noite o seu instrumento particular de tortura para o resto do universo que tenta descansar.
Quem já derrubou pedacinhos de chocolate sobre o lençol sabe o que isso significa... e quem mora perto de boate também.

Se o elemento universal tem todos os motivos para detestar uma barata, o robô Miraflores achou que “todos os motivos” não eram suficientes e encontrou mais um: o fanatismo religioso.

Desde que fora decapitado por uma chinelada e ressuscitado por uma inconsequente experiência científica, Bukakron – o barata macho mais existencialista do universo – decidiu adotar Miraflores como seu único e verdadeiro Messias. Aquele que o trouxe de volta da morte.
Poderia ter adotado como amigo, ídolo e até como peso de papel, mas não! Tinha de ser com alguma coisa relacionada às artes espirituais. Eternas desafetas da lógica robótica.
A partir de então ele aparece nos momentos e lugares mais inapropriados cantando musica sacra de péssima qualidade melódica; acende velas fedidas em locais fechados e sem janelas; e confessa que teve pensamentos impuros envolvendo suas 799 irmãs em trajes sumários. Uma visão repugnante quando se trata de quase 1.000 baratas peladas.

Miraflores considerou a possibilidade de realmente assumir a identidade de um Deus, mas não um Deus piedoso e paciente que suporta tudo calado, porém um raivoso e intempestivo que logo taca um raio na cabeça de quem fala muita besteira.
Em seu momento de vingança pessoal ilusória imaginou-se comendo uma delas para demonstrar seu repúdio, mas Clarice Lispector já experimentara dessa receita e não pareceu causar tanto pavor assim. Além disso, elas poderiam considerar tal façanha como uma espécie de sacrifício divino e começarem a se oferecer espontaneamente para os próximos rituais gastronômicos.
“Quem sabe poderia se transformar em uma delas para expor sua própria fragilidade?” – quase gostou da ideia – “Nããã, muito Kafkiano”.
Miraflores só via uma saída digna: mudar de universo com um passaporte falso, assumir uma nova identidade e virar cantor de karaokê. Apenas para tornar a coisa mais verossímil, afinal todo mundo sabe que isso não é uma opção pessoal, mas sim uma maldição que se carrega desde o nascimento como resultado de um carma de várias encarnações erráticas.
Não deu tempo!
A notícia se espalhou pelo lixão e o espaço ao seu redor, a perder de vista, fora inundado por coisas marrons, cascudas, brilhantes e silenciosas aguardando por seu pronunciamento divino.
Miraflores olhou para elas.
Elas olharam para Miraflores.
Miraflores falou “Foda-se” e acenou.
A cena a seguir foi constrangedora e quinze dias depois, quando finalmente conseguiu explicar ao psicólogo o seu novo conceito de sexo grupal, Miraflores percebeu que o universo nunca mais seria mais o mesmo.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Um novo Deus no pedaço

No Mundo dos Deuses todos se acotovelavam apertadinhos à beira do precipício, de onde se tem a melhor visão da Terra dos homens, tomando muito cuidado para não empurrar a divina galera ribanceira abaixo. Seria bastante difícil explicar uma chuva de deuses em plena segunda-feira.
Mas eles até que eram organizadinhos, mantendo os menores junto às deusas na fileira da frente enquanto o restante se empoleirava atrás da melhor maneira possível para não perder um só movimento do que acontecia lá embaixo.
Tudo ia divinamente bem – como é de se esperar que ocorra entre deuses educados – até que alguém fez uma coisa muito feia deixando todo o restante com cara de culpado. Não dava para esconder o constrangimento. Ninguém ousava sequer respirar. Uns começaram a olhar para o alto, outros brincavam com as folhinhas secas no chão e tinha até aquele que fingia digitar no celular, embora fosse público e sabido que sinal de operadora só funciona bem dentro de presídios e penitenciarias de segurança máxima.
O deus da guerra perdeu a paciência:
- Muito bem! Quem foi o engraçadinho?
Todos se voltaram automaticamente para o deus do vinho, mas ele se defendeu com profissionalismo.
- Não fui eu. Empenho minha melhor safra. – o termo “empenhar” tem a mesma credibilidade entre deuses que a expressão “tô falando sério, pô!” entre os homens e todos acreditaram em sua palavra.
- Vocês parecem humanos... – a deusa da moralidade ofendia seus pares quando foi interrompida por uma voz insegura e juvenil.
- Fui eu.
A figura alta, magra e improvável, vestindo uma toga xadrez prateada e um enorme par de óculos emoldurando um rosto repleto de espinhas parecia um alienígena nerd.
- Quem é você? – todos perguntaram em coro.
- Deus da tecnologia, muito prazer.
- E o que você pensa que esta fazendo, deus da... tecnologia? Existe isso agora?
- Eu só realizei um milagre... alias meu primeiro milagre... fiz errado?
- Perae! – o deus agrário, que também acumula a função de deus dos insetos, coçou a cabeça e se conteve para não explodir com o novato – Você ressuscitou uma das minhas baratas sem permissão?
- Nã..não! Eu só fiz o milagre que o Miraflores pediu.
- Negativo! – o esforço para não defenestrar o jovem deus era evidente – O Miraflores pediu para “ver” um milagre e não “fazer” um milagre... percebe a diferença?
- Aaaahhh!
- E além do mais não se pode sair fazendo milagres assim sem mais e nem menos. Existem regras básicas que diferenciam um bom Deus de um bruxo qualquer... você quer que te confundam com o Harry Potter?
A proposta não pareceu de todo ruim para o nerd metido a aprendiz de Deus, mas pela entonação da pergunta pareceu-lhe que uma negativa seria mais bem contextualizada.
Para alívio geral um Deus bonito, irradiando bondade infinita, interviu, acolheu o novato com seu manto de sabedoria e falou:
- Quer algumas dicas?
Arpas divinas ecoam por alto-falantes ocultos em todo o universo quando o Deus bonito fala e o jovem, diagnosticado com déficit de atenção, se dispersou olhando para os lados tentando entender de onde saia o som.
- Foco! – repreendeu o Deus bonito com doçura.
- Cla... claro! Quero as dicas sim Senhor. – respondeu o aprendiz sem se desligar completamente do misterioso efeito sonoro, afinal é fácil esconder caixas de som entre nuvens, mas por onde passariam os fios?
- Nunca transforme seus filhos em santos milagreiros, pois isso causa uma confusão da porra.
- Podemos falar palavrão, Senhor?
- Agora podemos... já expliquei isso em algum post anterior... mas voltando aos ensinamentos sagrados, também tenha cuidado com a expressão “criado à sua imagem e semelhança”.
- Por que?
- Teve Deus que foi por esse caminho e causou o maior rebuliço entre seus fiéis. Concluíram que seu Deus deveria se parecer com eles... cor de cabelo, olhos, pele, etc.
- Mas não seria o contrário? Quer dizer.. “eles” é que deveriam se assemelhar a seu Deus no sentido espiritual.
- Deveriam, mas meteram os pés pelas mãos. Os fiéis mais poderosos, brancos, sarados e de olhos azuis se apropriaram da santa imagem e não sobrou para mais ninguém.
- Mas isso é sério... como ficam as diferentes etnias no meio dessa iconografia religiosa preconceituosa?
- Igual às crianças não brancas que são obrigadas a brincar com Barbies loiras.
- Deve causar algum tipo de crise de identidade religiosa, será que não?
- Não sei se as crianças misturam brincadeiras de boneca com crenças espirituais. No máximo vão fazer chapinha e pintar o cabelo de amarelo quando crescerem.
- Não! Estou falando dos fieis que recebem um Deus alheio à sua cultura como imposição religiosa. Deve confundi-los.
- Ah! Isso também.
O Deus bonito deu de ombros resignado e mudou de assunto.
- Só mais uma sugestão. – o Mestre assumiu um ar grave e o jovem aprendiz entendeu que aquele seria o mais importante ensinamento de todos – Jamais permita interlocutores entre você e seus fieis.
- Por quê?
- Eles distorcem suas palavras e ensinamentos para benefício próprio e ao final, além de se apropriarem de sua identidade, ainda disseminam ódio, conflitos religiosos e toda sorte de hostilidade em seu nome.

sábado, 22 de março de 2014

M7 - Milagre Miraflores

A oração aproxima o fiel de sua divindade trazendo paz interior e alivio para o sofrimento. Jamais o contrário, aprendeu Miraflores.
A teoria é tão simples que não deveria representar maiores desafios para robôs quânticos conhecedores de inúmeras religiões e seus protocolos secretos (como o momento certo de se levantar e abaixar durante o culto); proficientes em ladainhas e rituais sagrados; e muito mais, embora muito mais possa parecer pretensão e dificultar a postura de humildade requerida por algumas supremas entidades religiosas.
Existe, porém, um detalhe. Tudo isso é muito óbvio para seres de carbono que carregam consciência e espiritualidade desde o nascimento, mas e quanto aos bichos sem alma e humanoides criados a partir da lógica racional e distante da centelha divina?
Miraflores estava exatamente neste ponto de auto esculhambação mística, e se perguntando se algum Deus aceitaria entidades desalmadas – além dos deuses do mal –, quando se deu conta de que precisava de um sinal divino. Qualquer coisa básica como uma voz de trovoada vindo do nada e disposta a um diálogo casual; águas que se dividissem em duas e facilitassem a travessia de áreas alagadas; ou simplesmente um coração que começasse a bater sem mais nem menos em seu peito de lata. Tudo sem muita pretensão.
A verdade é que as coisas não estavam saindo exatamente como ele planejara em um momento de desespero (que é o momento ideal para estas tomadas de decisões).
Já fazia um bom tempo que ele rezava – apesar de não saber quanto seria um tempo bom em termos de reza – e sequer tinha a certeza de estar seguindo o protocolo de seu Deus. Fosse ele qual fosse.
Definitivamente precisava de um sinal.
Olhou para cima e lembrou que deveria se acostumar aos jargões religiosos. A partir daquele momento jamais olharia para cima novamente... olharia para o céu, pois alguém muito criativo tinha inventado que os deuses moravam no espaço acima de suas cabeças (jamais abaixo, nem ao lado e muito menos dentro de si mesmo ou em outras dimensões).
Olhou para o céu e não percebeu qualquer sinal digno de um Deus, apenas uma imensidão azul repleta de beleza. Certamente os humanos diriam que isso era obra de Deus, mas ele preferiu classificar como algo de belo padrão estético ou simplesmente um ótimo lugar para soltar pipas, voar de asa delta e paraquedas, ou qualquer atividade que precisasse de muito, muito espaço – de qualquer maneira era assunto para outro momento de adaptação humanoide.
Olhou para o sol nascendo no horizonte e imitou um suspiro humano... “bonitinho, mas insuficiente como milagre”.
Uma sandália inconveniente atrapalhou seu exercício místico ao se mexer sozinha diante de seus três olhos biônicos. Um deles afirmou que se tratava de uma ilusão de ótica, o outro alegou insanidade das leis da física e o terceiro considerou a possibilidade de que algo muito estranho estava acontecendo e que até poderia representar a manifestação de uma entidade carente tentando chamar atenção.
- Será? – pensou consigo mesmo.
Levantou o objeto e se decepcionou. Era apenas uma barata decapitada, mas que ainda se movimentava energicamente, afinal esses bichos conseguem sobreviver por vários dias sem a cabeça.
Lembrou-se da morfologia dos insetos e se animou com uma possibilidade científica:
- Seria viável reimplantar a cabeça de uma barata ao corpo?
Já que seu Deus não estava para milagres e não havia nada melhor a fazer, resolveu se divertir.
Abriu um compartimento de seu braço robótico, ejetando lentamente o bisturi destruidor de coisas que existem para serem odiadas.
Baratas são coisas que existem para serem odiadas – lembrou-se –, portanto basta reverter o processo de sua ferramenta e...voilá... a barata estava inteira novamente.
Miraflores olhou para a barata restaurada que não se intimidou e olhou de volta. E além de olhar de volta ainda falou de volta, embora o robô não tivesse lhe dado qualquer intimidade ou permissão para interação sonora:
- Milagre! Teu milagre me trouxe de volta à vida. – Bukakron, que havia morrido ao levar uma chinelada em “Agrandeza das coisas, dos fatos e dos atos”, reverenciou seu novo deus: o sagrado Miraflores.

sexta-feira, 21 de março de 2014

M6 -Miraflores fez a coisa errada do jeito certo

Há uma ou duas coisas no ser humano que sempre confundem Miraflores. Uma delas é o ritual de enfiar o dedo no nariz quando estão com seus veículos parados em um cruzamento esperando que as luzes mudem de cor. Aparentemente a massagem intra-nasal estimula a região do cérebro responsável pela agressividade, pois partem em alta velocidade ofendendo e ameaçando uns aos outros assim que recebem permissão da luz verde.

O outro mistério indecifrável entre os homens é a sua falta de coerência com as próprias regras. Jamais tente entende-las ou segui-las, sugere o pequeno robô que já experimentou fazer a coisa certa do jeito certo e foi desencorajado. Em seguida apelou para a coisa certa do jeito errado e foi punido. E agora está sendo julgado por fazer a coisa errada do jeito certo... Vai entender.

Privado de liberdade e trancafiado em um depósito de ferro velho entre os piores malfeitores do universo – o carro de luxo estacionado à sua direita foi condenado por assassinar uma família inteira ao se desentender e bater de frente com uma locomotiva; a guilhotina à sua frente foi desativada após decepar a cabeça de um tipógrafo no interior de uma gráfica enquanto imprimia cartazes de “procura-se um cãozinho fofo perdido”; e a serra elétrica à esquerda cortou o braço de um marceneiro sem dó e nem piedade logo após destruir uma árvore milenar ameaçada de extinção – Miraflores espera julgamento pelo crime de cumplicidade no assassinato de um cantor de Karaokê e uma atendente de Call Center, com o agravante de desmontar um veículo caríssimo e acobertar a fuga de sua parceira para outra dimensão.

Justo ele que desmaiou para não machucar um brotinho vegetal recém-nascido, agora responde pela violação da primeira diretriz de Asimov em um total desrespeito para com o Manual de Robótica.

Mas agora já chega!
Miraflores chegou ao limite de sua paciência e após abusar da capacidade computacional de seus qubits, analisar um numero muito grandão de probabilidades estatísticas e comparar suas reações lógicas à emocionalidade dos humanos, chegou à conclusão definitiva de que a solução para seus problemas só viria através de superstições, mitos, crenças infundadas, exageros emocionais e toda sorte de irracionalidade utilizada pelos polegares opositores quando se desesperam.

Em um último esforço para acertar ele finalmente decidiu fazer a coisa errada do jeito errado.

Aproximou-se de uma montanha de ferragens, imaginando que ali seria o melhor lugar para encontrar o Deus dos Robôs, e rezou. Rezou como nenhum outro ser inanimado jamais teria rezado antes.

quinta-feira, 20 de março de 2014

M5 - Miraflores embala corpos mutilados

Miraflores já foi programado e reprogramado tantas vezes que nem se recorda de suas memórias originais. Ou memória básica, como querem os analistas de robôs.
Claro que o Cálculo Zero Primordial deve estar por ai, em algum canto perdido do velho HD, mas onde? Provavelmente particionado entre a feliz lembrança de uma ida para revisão, ainda na garantia de um ano, e a horrível briga de facas com o vice-presidente que o demitira recentemente sob acusação de falsidade ideológica.
Mas tudo isso ficou para traz. Agora o que lhe interessa são os hóspedes, suas gorjetas e suas esquisitices, afinal, ele trabalha no universalmente conhecido Hotel das Cindo Estrelas Cadentes. Logo ali na borda do universo de onde se tem uma excelente visão panorâmica de todo o lado oeste – desde que você não tenha o azar de pegar um dos quartos de fundo, cujas janelas dão para o nada absoluto.

No 1300º andar do hotel, deslizando sobre o moderníssimo sistema de flutuadores eletromagnéticos bidirecionais do corredor infinito, ia começar a solucionar uma equação de 5º grau multi-dimensional, apenas para se distrair, quando chegou ao se destino.
Miraflores pressionou o discreto botão azul da suíte 1.309 com a dedicação de quem aciona o gatilho de uma arma de brinquedo. Tentou recordar se já havia assassinado alguém com uma dessas, mas não. Definitivamente nunca cometera crimes com uma campainha azul, o que certamente contou pontos no momento da sua contratação em um hotel repleto de portas e campainhas.

O presumível Blim-Blon ecoou suave do outro lado da porta e Miraflores quase sentiu saudades da época em que campainhas faziam Bzzzzz, mas passado é passado e não se fala mais no assunto... pelo menos enquanto não inventarem a máquina do tempo que leve ao passado, pois ao futuro é bem tranquilo, tanto para humanos quanto para robôs, frutas, hortaliças e minerais em geral. Basta não fazer nada que o tempo se encarrega de leva-los adiante.

Claro que o viajante pode ser mais exigente e se interessar por um salto mais longo no tempo. Digamos uns cem ou duzentos anos.
Essa ousadia também é possível desde que a criogenia se tornou reversível, embora ainda existam problemas técnicos na hora de localizar as almas desgarradas. Nem todas tem paciência de ficar paradinha ao lado daquele corpo azulado e saem perambulando feito almas penadas, visitando centros espíritas ou de Umbanda em busca de uma palavra amiga ou uma cachaça grátis. E mesmo depois de localizadas sempre tem aquelas que se recusam a grudar no corpo recém acordado aos gritos de “esse corpo não me pertence”. Mas não tem problema, afinal os robôs e os seres desalmados existem com ou sem alma e isso sempre foi assim.

A garota que abriu a porta vinha pendurada a um sorriso que destoava do momento e Miraflores nunca gostou de coisas, pessoas ou sorrisos que destoassem de momentos. Ainda se fosse um sorriso amarelo ou desconfiado e até um falso sorriso, tudo bem, mas jamais um sorriso de felicidade. Não às seis horas da manhã (considerando o fuso horário de -39 bilhões de anos luz em relação ao centro do universo)

Ela o convidou a entrar e seguiu à frente rebolando e pingando um pouco de óleo e sangue pelo caminho, mas nada que assustasse o pequeno robô. Não nessa quantidade.
Ao passarem pela cozinha da suíte, ele recusou o copo d´agua oferecida pela anfitriã, mas aceitou um pouco de WD40 e um guardanapo para limpar as manchas negras e vermelhas deixadas em forma de impressão digital ao redor da lata. “Isso vai dar o maior trabalho para limpar”, deduziu conferindo que havia sangue e graxa até no teto, mas deu de ombros, afinal ele não era faxineiro.
No quarto principal seu desconforto aumentou. Embora não conseguisse identificar o motivo, alguma coisa não se encaixava no cenário.
Sua intuição o guiou pela mão para que contornasse o automóvel estacionado no lugar da cama King Size. Soltou-se momentaneamente da intuição para não esbarrar nos corpos degolados e se posicionou onde originalmente deveria existir uma cabeceira da cama.
Tudo estava perfeitamente em ordem. O freio de mão puxado e os corpos com o cinto de segurança afivelado obedeciam perfeitamente à legislação de transito, mas alguma coisa não estava onde deveria estar ou vice-versa.
Nas mesinhas de cabeceira laterais, duas cabeças ocupavam o lugar onde originalmente haveria os abajures, que, aliás, estavam no chão, mas isso é só uma questão de gosto pessoal e, além do mais, cabeceira deve ser ocupada por cabeça - óbvio.

A moça do sorriso errado lhe pediu ajuda para acomodar os corpos nas malas e Miraflores titubeou, afinal tinha assumido um compromisso consigo mesmo de jamais interferir em assuntos humanos novamente. Até pediu ao gerente do hotel que lhe fornecesse uma descrição completa de tudo que ele deveria fazer (ou deixar de fazer). Revisou a lista e não havia qualquer restrição a ajudar hóspedes no momento de arrumarem suas malas. Até abria espaço para gentilezas ocasionais sempre que possível – e fazer malas era uma gentileza e tanto.
Em um excesso de cortesia adicional recomendou que os corpos fossem desmembrados em pedaços menores para caberem nas valises pequenas e ela concordou, deixando Miraflores satisfeitíssimo consigo mesmo por acertar na estratégia.
O próximo passo, após embalar os corpos, seria desmontar o carro para que fosse encaixotado em contêineres de madeira. Por sorte Miraflores dispunha de um software customizado para montadoras automobilísticas e isso, sem dúvida, costuma facilitar bastante o processo.

Passava das 10 horas da noite quando o robô finalmente se despediu da moça que, agora sim, podia sorrir feliz, embora já não houvesse sorriso.

Foi no hall dos elevadores, voltando para o estacionamento de eletrodomésticos onde teria um encontro com a geladeira, que Miraflores finalmente se deu conta daquilo que tanto o incomodava desde as seis horas da manhã. Nem titubeou. Deslizou veloz até a sala do gerente e relatou minuciosamente a grande irregularidade encontrada no interior da suíte 1.309.
Seu chefe ouviu atentamente e concordou que de fato a hóspede cometera um delito muito grave, mas fez uma última pergunta:
- Além da cama King Size desaparecida, você notou mais alguma irregularidade?
Miraflores queria fazer um pequeno comentário adicional, mas revisou novamente o código de conduta e seu manual de atribuições e definitivamente ninguém fizera qualquer recomendação sobre proibição de corpos desmembrados ou automóveis estacionados em lugares improváveis.
- Não senhor.  – o robô negou convicto – Todo o restante está perfeitamente dentro dos padrões do Hotel das Cindo Estrelas Cadentes.
E se retirou feliz por finalmente ter feito a coisa certa.

terça-feira, 18 de março de 2014

M7 - O que querem os Deuses afinal?

Os Deuses do Olimpo estavam sentadinhos e em estado de choque à beira do precipício de onde se tem a melhor visão da Terra dos homens. Tinham acabado de assistir à tragédia de Bukakron e todos se entreolhavam atônitos com o triste desfecho daquele jovem herói, pois seguiam sua história desde quando ainda era o pequeno Bukakronzinho da mamãe.
A Deusa da futilidade ajeitou a revista Caras no colo e começou a chorar.
- Que vergonha... me desculpem.
- Não precisa se desculpar, amiga, eu também estou emocionada com o fim do nosso amiguinho. – socorreu a Deusa da beleza enxugando uma lágrima e borrando a própria maquiagem, o que a deixou com cara de Ozzy Osbourne depois do famoso jantar de morcego.
- Não! Eu estou chorando de vergonha pela besteira que a Anitta fez... o nariz dela ficou ridículo depois da operação plástica. Não bastava irritar as pessoas com aquela coisa que ela chama de musica e agora também quer assombrar com a imagem?
- Ah!
- Alguém pode me explicar o que exatamente passou pela cabeça do Bukakron? – perguntou a Deusa do egoísmo – Ele poderia ter ficado quietinho junto daqueles que o amavam... mas não... tinha que se sacrificar em terras desconhecidas... odeio meninos e seus excessos de testosterona.
- Nós já tivemos essa mesma conversa quando Che Guevara deu as costas às declarações de amor do Fidel e preferiu morrer sozinho na Bolívia. – interferiu o mensageiro dos deuses que sempre levava a pior durante essas discussões. Sempre achavam que ele tinha algum tipo de culpa.
- Não, ela tem razão – emendou um Deus que ninguém sabe o nome, afinal são tantos deuses que é impossível se lembrar de todos – Por que nossos filhos insistem em sair do local onde os colocamos e vão se meter onde não são chamados?
- Isso! – a egoísta se animou – Eu não queria ficar aqui sofrendo por uma leviandade de um filho inconsequente.
O Deus do bom senso pediu a palavra:
- Quer dizer que Bukakron deveria se conformar com o auto-desconhecimento e tocar a vidinha besta? Assim como Colombo não deveria ter cruzado os mares e o homem nem deveria ter ido à Lua?
- Mas o homem não foi à Lua.
- Sim, mas a questão é retórica. Se os bichos aceitarem passivamente seus limites só para agradar a alguém, ainda que sejam os deuses, estarão abrindo mão do livre arbítrio. Perderão o direito à própria felicidade só para que alguém seja feliz em seu lugar. E isso Nós não queremos, certo?
Como ninguém contestasse, ele insistiu.
- Alguém aqui deseja que nossos filhos sejam cordeirinhos só para nos trazer felicidade?
O Deus do vinho que parecia não estar ouvindo uma só palavra daquilo que se dizia levantou o dedinho gordo e desviou o olhar da taça meio vazia:
- Quem vai explicar tudo isso aos fiéis do Deus bonito?

segunda-feira, 17 de março de 2014

M7.1 - A grandeza das coisas, dos atos e dos fatos

Bukakron sempre foi o mais belo, sábio e forte guerreiro de sua espécie, os Medratens, mas o preconceito contra seres perfeitos era tão arraigado em sua cultura que ele duvidava da própria sabedoria.. ou beleza... ou bravura.
- Poderia três atributos tão nobres coexistir em um único ser? – propôs o enigma para si mesmo durante uma crise de baixa autoestima, mas como não obtivesse réplica buscou uma segunda opinião junto aos seus botões.
Ele sempre ouvira dizer que botões eram ótimos conselheiros, mas os seus, por uma razão que lhe fugia à compreensão, eram calados e introvertidos. Não conversavam nem entre si.
Recorreu à literatura, aos deuses e à borra de chá de neve – mais conhecida como neveomancia e que se destina à leitura do passado, futuro, presente e presente mais que perfeito – em busca de resposta aos dilemas que maceravam seus neurônios.
Os livros guardavam pouquíssimas e desatualizadas informações, pois com o advento da internet ninguém mais os manipulava. Os deuses estavam muito ocupados jogando dados com o universo e não lhe deram atenção. E a borra de neve era tão previsível que ele duvidou de sua veracidade.
Foram as produções cinematográficas que mais o aproximaram da verdade. Descobriu que seres másculos, bonitos e inteligentes só podem ser heróis completos em filmes classe B e de baixo orçamento, pois as grandes produções em geral sabem democratizar a distribuição de papeis: Ao mocinho bonito se destina o amor de uma bela companheira; a bravura é uma recompensa ao sofrimento dos personagens injustiçados e a sabedoria se reserva às minorias étnicas.
Bukakron jamais permitiria que sua vida se transformasse em um filme de mau gosto e decidiu buscar sua verdadeira vocação em uma grande aventura épica.
Avançados cálculos de astrofísica e aerostática propuseram que sua essência, enquanto ser universal, só poderia ser alcançada em um longínquo planeta azul chamado Terra. Lá ele teria a oportunidade de provar seu único e verdadeiro valor, fosse ele a beleza de um pavão, o gigantismo de um bravo guerreiro ou a sabedoria de um ancião.
Após viajar treze bilhões de anos Medratenos – equivalentes a meia hora terrestre – finalmente Bukakron chegou ao seu destino.
Dividido entre o temor do desconhecido e o fascínio de uma aventura logo descobriu que os terráqueos possuíam uma estatura aproximadamente 200 vezes maior que a sua, mas isso não seria problema se a sua aparência refletisse um anjo aos olhos humanos.
Percebeu que não era assim tão lindo quando a gigante feminino olhou bem fundo em seus olhos e gritou: “Que bicho horrível. Deve ser uma barata”.
Seu pequeno coração, orgulho ferido, falhou uma batida, afinal sempre se reconhecera como um belo pedaço de mau caminho, mas ele não estava ali para alimentar caprichos e sim em busca de seu verdadeiro eu. Agora, eliminando um dos atributos, a beleza, pelo menos sabia que o destino lhe reservava sabedoria ou espírito de guerreiro. O tempo, porém, não estava a seu favor e um novo grito ecoou em seus minúsculos e sensíveis ouvidos: “Pisa nele!”.
Uma fração de segundos foi o que lhe restou para concluir e usufruir que sim... ele era um ser iluminado e de enorme sabedoria, afinal de contas que bravo guerreiro seria derrotado por uma sola de sandália colorida?
E morreu feliz com a sorte do autoconhecimento adquirido... e mais sorte ainda por não ter ouvido o próximo grito:
- Bicho burro. Tinha que ficar parado na minha frente?

M5 - Divina segunda-feira

Todo começo de semana no Olimpo é aquela tragédia grega. A começar pela convocação da reunião de informe semanal logo pela manhã. Parece coisa de criança, pois ninguém chega muito cedo nesse dia, já que a maioria ainda está retornando da viagem que fez ao seu domicilio religioso – afinal, Deuses também precisam prestar conta aos fiéis de suas bases de apoio – e mesmo aqueles que não viajam em finais de semana também costumam se atrasar como é o caso do Deus do vinho que sempre chega de óculos escuros para esconder a olheira e um mau humor que contamina até apresentador de programa de auditório dominical.

A sorte da divina galera é que a “Turma do Dinheiro”* sempre chega mais cedo trazendo chocolatinho importado de presente e monopolizando a atenção geral com suas apresentações impecáveis em Power Point.
Tá tudo lá: gráfico com o número de fiéis doutrinados na semana; a taxa de evolução do mal – uma complexa equação de segundo grau comprova que o mal é inversamente proporcional ao valor recebido em dízimos  –; o índice de fé – que determina se a fé está compensando em uma comparação entre dízimos recebidos e milagres concedidos –; e por ai vai.

Em seguida vão chegando os Deuses mais requisitados entre a noite de sexta-feira e a madrugada de segunda-feira e por isso mesmo mais cansados e mais atrasados.  Destaque especial para o da bebida – já mencionado –; além do Deus do amor e a Deusa da paixão que sempre chegam disputando fiéis; a Deusa da beleza que sem maquiagem não é tudo aquilo que se pensa; O Deus da fertilidade sempre com um olho nos próximos 9 meses; o Deus da fidelidade totalmente desolado; o Deus da morte contabilizando adeptos de última hora; e finalmente o Deus da sabedoria, todo bronzeado, que só trabalha em dias de semana.

Se alguém pergunta pelo Deus bonito, que nunca comparece, mas sempre está presente, a resposta é invariavelmente a mesma: está limpando o templo que foi palco de infindáveis cerimônias religiosas e peregrinações, pois ele jamais aceita que façam o seu serviço. É muita onisciência, onipresença e onipotência para um único Deus.

Nota
Turma do Dinheiro* - Uma inovação importante do processo religioso universal foi a aprovação da proposta para que as igrejas e congregações religiosas mais novas, fundadas a menos de meio ciclo olímpico e carinhosamente conhecidas como "Turma do Dinheiro", comparecessem pessoalmente às divinas reuniões semanais, pois já que eliminaram a presença de Deus na distribuição de milagres, não fazia sentido apenas usa-los como intermediários em reuniões burocráticas. Principalmente por que a palavra de Deus é cada vez menos utilizada em religiões experimentais.


domingo, 16 de março de 2014

M4 - Sai do armário, Miraflores

Não é fácil para um robô sair do armário. Principalmente quando está na adolescência, passando por crises de identidade e com seus fluidos hormonais de ultima geração vagando descontrolados por tubinhos robóticos coloridos espalhados pelo corpo. Miraflores não era mais o mesmo desde a última atualização de sistema, mas “foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que ele dominou seu asco” (desculpa ai, Chico Buarque, mas não deu para resistir). Deu-se por vencido assim que o engenheiro de robótica informou sutilmente que cortaria sua mesada e seu acesso à internet caso ele não se comportasse como um robô adulto.
A sequencia de acontecimentos ficou confusa para Miraflores quando a porta se abriu e lhe espetaram um pendrive na parte traseira, logo abaixo do quadril. A sensação foi estranha a principio, mas não demorou um minuto para se acostumar e perceber que o departamento estava um caos.
Extintores de incêndio com data de validade vencida, usuários curtindo páginas de bichinhos fofos na internet, funcionários voltando do banheiro sem lavar as mãos.
- Você! – Miraflores apontou o bracinho robótico para um chefe de sessão – Pode se apresentar ao departamento de recursos humanos. Está despedido!
- Por quê? O que eu fiz?
- Nada. Só estou treinando a impostação de voz e minha autoridade.
- Então eu não estou despedido?
- Está sim. Você é um ótimo desempregado.
Em seguida caminhou enérgico até a folha de plantões trabalhista e cancelou todas as férias e feriados não obrigatórios do ano.
Quando um trabalhador tentou protestar, Miraflores reduziu o horário de almoço de toda a repartição, como retaliação, e ainda ameaçou retirar as revistas masculinas disponíveis nos banheiros.
A salva de palmas da plateia feminina foi motivo suficiente para que ele também proibisse protestos sem sutiã na porta da empresa a partir daquele momento.
Alguém questionou se ele teria autoridade suficiente para tomar estas medidas e ficou proibido de participar das próximas brincadeiras de amigo secreto da empresa.

A notícia sobre suas ações enérgicas e autoritárias se alastraram de forma tão negativa pelos corredores que obrigou o vice-presidente a comparecer pessoalmente à sala do engenheiro de robótica.
- Essas ações tresloucadas do Miraflores e todas as reclamações dos funcionários... – o vice interrompeu a frase e tocou gentilmente o curativo na orelha direita do engenheiro – isso incomoda?
- Eu consegui reimplantar a maior parte da orelha e os sedativos amenizam a dor, então... não... O curativo não incomoda.
- Eu não perguntei sobre o curativo. Perguntei se as ações tresloucadas do Miraflores e as reclamações dos funcionários incomodam.
- Ah! Eu acredito que teremos pedidos de demissão em massa se ninguém contiver esse robô maluco.
- Mas afinal de contas, quem ele pensa que é? Deus?
- Acho que sim! Eu implantei um vírus de vice-presidente no Miraflores.

quinta-feira, 13 de março de 2014

M3 - O rebelde Miraflores

O vice-presidente da empresa parou ao lado do engenheiro de robótica e deu-lhe uma pequena mordida na orelha direita – estava de bom humor e excitado com a proximidade da sexta-feira.
O engenheiro esperou o chefe afastar a boca e considerou a possibilidade de gemer “ui” bem baixinho antes de limpar a baba melequenta deixada no ouvido, mas preferiu não fazer uma coisa e nem outra. Simplesmente fingiu que nada tinha acontecido.
- Em nossa ultima conversa você comentou sobre o vírus de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado aplicado no robô por engano – o vice disparou ao acaso, também fingindo que nada tinha feito. Provavelmente esperava outra reação do funcionário. Um agradecimento, talvez? Sabe-se lá o que vai pela cabeça de um vice-presidente bem humorado, afinal isso é tão raro.
- Eu já consertei meu erro, senhor.
- Tenho certeza que sim, mas você sabe o que faz um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado?
- Não.
- Nem eles. – o chefe realmente estava de bom humor – Mas diz ai, o que está acontecendo com o Miraflores agora?
- Coloquei o robô novamente na função de observador de flores dentro da estufa.
- Está funcionando bem?
- Não sei ainda. Acabei de restaurar o sistema operacional dele.
- Vamos observar juntos então.
O engenheiro não estava gostando nada daquilo, mas emprego anda tão difícil ultimamente que ele simplesmente entrelaçou os dedos do chefe com a maior formalidade possível.

Dentro da estufa Miraflores acendeu um olho robótico, depois o outro e finalmente o terceiro.
Sua memória RAM recém-iniciada não guardava informações de eventos anteriores, mas em algum lugar do HD deveria haver um sistema de backup ou recover onde pudesse acessar detalhes do seu estagio anterior.
Não daria tempo.
A esteira repleta de flores começou a se movimentar à sua frente e ele deveria selecionar as mais bonitas para replantio. Era sua função de robô observador e seletor de flores.
Seus triplos sensores CCD capturavam imagens e cores com uma qualidade tão boa que seria inimaginável para os olhos humanos e ele sabia disso. E sabia também que não poderia falhar, mas, por outro lado, também não poderia ignorar sua vida robótica anterior a essa. E se na versão anterior ele tivesse ocupado a função de cantor de karaokê? Ou, pior, agente de marketing ativo em Call Center? Quantas pessoas ele teria acordado no sábado de manhã para fazer pesquisas de opinião?
Ele precisava conhecer detalhes de suas vidas passadas e para isso deveria desempenhar duas tarefas ao mesmo tempo: classificar flores e vasculhar suas memórias pregressas, de tal forma que uma atividade não interferisse na outra.
Pensou, calculou, compilou e descobriu que nesse exato momento estava infectado com um vírus bem apropriado. As novas características implantadas em seu sistema pelo engenheiro de robótica lhe permitiam fazer varias coisas ao mesmo tempo.
Partiu robô!
Abriu uma geladeira que estava no fundo da estufa e pegou um refrigerante. Correu até o armário dos funcionários e se apoderou de um saco de salgadinhos. Na prateleira da equipe de engenharia encontrou o celular que precisava... abriu o aplicativo do Face e começou a digitar.
Quando o chefe dos robôs lhe perguntou o que estava acontecendo ele gritou: “Eu te odeio” e se trancou em um armário se recusando a abrir a porta - por mais que tentassem arromba-la.

Do lado de fora da estufa o engenheiro de robótica, sozinho, sangrava pela orelha direita:
- Adolescente? Eu transformei o Miraflores em um adolescente?

terça-feira, 11 de março de 2014

M2 - O conteúdo da semente sob a ótica de Miraflores

Miraflores olhava para aquela semente há muito tempo. Tempo demais, para falar a verdade.
Durante 5 dias, 22hs e 30 minutos seus três olhos robóticos não se desviaram uma única vez daquele pequeno pedaço orgânico... e isso é paranoico.
Mesmo para um robô é muito tempo. Tempo suficiente para apertar 518.411 parafusos sextavados; atender a quase 200 pesquisas de marketing telefônico, apagar os 400 mil spam recebidos na semana ou flertar com meia dúzia de geladeiras duplex, por que ninguém é de ferro, ou melhor, ele é de ferro, mas foi programado por um engenheiro de robótica muito pervertido e apaixonado por fêmeas altas e frígidas.
Mas voltando às sementes, até que não são más companhias, desde que você aprecie o silencio. Aliás, são muito adequadas se você estiver à procura de algo que não leia poesia, embora também não brinquem e nem lavem banheiro. Ou então você pode se interessar por uma delas se gostar de coisas secas, esbranquiçadas, minúsculas, sem cheiro nem movimento.
Precisa de um lugar para pendurar a roupa? Sementes não servem a este propósito.
Carro... você precisa de um motorista particular? Elas não têm altura suficiente para dirigir.
Miraflores olhou para o teto da estufa como quem olha para o teto de uma estufa e finalmente concluiu que sementes são coisas para serem odiadas.
Abriu um compartimento de seu braço robótico, ejetando lentamente o bisturi destruidor de coisas que existem para serem odiadas, mas a ferramenta letal emperrou no meio do caminho com um barulho de pão, levantando uma questão engraçada: e se ele estivesse em um campo de batalha precisando urgentemente daquela arma para se proteger de um ataque de coisas que existem para serem odiadas?
Mas Miraflores é um robô, e robôs não acham graça de questões engraçadas.
Utilizando a segunda lei de Newton calculou o torque necessário para eliminar o problema e uma bolinha de pão saltou longe, liberando a ferramenta num solavanco. Miraflores sentiu-se tentado a calcular a trajetória do objeto lançado horizontalmente em queda livre, mas tinha coisas mais importantes a fazer.
Aproximou o bisturi da semente disposto a destruí-la em mil pedaços, quando avistou o brotinho nascendo inocente na lateral.
Seu sistema de proteção à vida desarmou toda a parafernália interna e desabou inerte (algo equivalente a um desmaio de humanos afrescalhados que não podem ver sangue sem dar chilique).

Do lado de fora da estufa, meia dúzia de observadores anônimos quedaram embasbacados com o desfecho da novela de uma semana. Era praticamente uma torcida que se reunia diariamente para ver o robô observador de sementes.
- Alguém consegue me dizer que merda foi essa? – perguntou o vice-presidente da empresa que apenas passava pelo local.
- O robô desmaiou! – respondeu o engenheiro de robótica com sua melhor inocência (aliás, ele só usava esse modelo de inocência em ocasiões muito especiais e considerou que era o caso no momento).
- Quer dizer... – o vice-presidente olhou ao redor para certificar-se de que não era uma pegadinha do presidente que, aliás, era muito gozador – ...quer dizer que eu invisto milhões de dinheiro em um projeto e o resultado é um robô boiola?
- Sim.. não... a gente está fazendo umas melhorias nele.
- Melhorias? – o homem olhou novamente em volta, só podia ser pegadinha – Esse robô já foi pior que isso?
- Sim... não... ele não era muito prático e lá no primeiro blog do Miraflores nós decidimos infectá-lo com um vírus da ambição para fazer com que produzisse mais.
- Produzisse mais? – o vice espumava de raiva e limpou a boca na camisa de um estagiário desavisado... foi a dica para que a rodinha de curiosos se dispersasse antes que sobrasse para todo mundo – Produzisse mais observando semente durante uma semana e sem fazer mais nada de útil?
- Eu... – o engenheiro de robótica considerou a possibilidade de usar o modelo de inocência especial novamente, mas achou que seria exagero gastar todo o estoque em um único dia – ... eu apliquei no Miraflores o vírus de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado por engano.