sábado, 29 de março de 2014

Adeus Miraflores

A praia estava excepcionalmente repleta de lixo devido ao feriado e o contingente de jovens que desfilava a esmo, apenas para exibir suas formas saradas, contrastava com aqueles que já haviam apaziguado a própria ansiedade ao lado de um parceiro, mas independentemente do status de relacionamento todos se divertiam com latas de refrigerantes ou cerveja e ignoravam o curso do relógio que insistia em cronometrar a preguiça do luar se pondo atrás do horizonte apenas para dar lugar ao sol que surgia no lado oposto.
Duas figuras solitárias se mantinham alheias à multidão e apesar de não serem tão diferentes entre si, alguns detalhes sutis revelavam suas singularidades: um era arredondado e o outro achatado; o primeiro reluzia prateado enquanto que o segundo estava mais para o marrom cocô; ambos tinham antenas, sendo uma dura e lisa e a outra flexível e peluda; um era robô e o outro barata; o robô se chamava Miraflores e a barata Bukakron.

Uma barata fêmea emergiu totalmente embriagada de uma garrafa de cerveja e levantou a asa esquerda em um movimento calculado, exibindo as pernas peludas em direção a Bukakron.
- Essa eu já peguei. – gabou-se o cascudo lambendo o torrão de açúcar que fazia sua cabeça há mais de uma hora.
- Tô ligado. – respondeu o robô viajando quase inconsciente nas páginas do Facebook.
Era o dia de se alienarem com drogas pesadas e cada um o fazia a seu modo.
- Aliás, eu já peguei a praia inteira. – a barata cheirou um grãozinho doce que caiu ao seu lado.
- Você disse. – Miraflores riu de um meme sem graça, turvando levemente sua racionalidade robótica.
- Falei que são todas da minha família?
- Falou.
- Você é um Deus bacana, sabia?
- Ahã. – Miraflores nem contestava mais aquela insistência do outro em considera-lo Deus.
- Você deixa eu lamber pedra ao seu lado, transar com minhas 799 irmãs... ou seriam irmãos? Ah, sei lá, tem tanto gay na minha família que já nem sei mais quem é o que.
- Sei.
- Sério? Então conta ai... quem é o que?
- Não! Eu disse que sei o que você quer dizer.
- Tá vendo... isso é que é um Deus de boa... entende a gente.
- Você já pensou no Big Bang, Bukakron? – parecia insanidade conversar a sério com uma barata, principalmente enquanto se drogavam, mas precisava calar a boca do infeliz de alguma maneira.
- Hummmmm... é um dos meus irmãos?
- Não, é o instante zero do nosso universo. O momento em que tempo e espaço surgiram do nada absoluto.
- Que loco... fala mais ai que eu tô curtindo. – o barata macho deu mais uma lambida no torrão de açúcar, segurou a respiração durante alguns segundos e expirou revirando as antenas de prazer.
- Eu suspeito que o Big Bang tenha ocorrido como resultado da explosão de um universo anterior que não suportou a própria quantidade de baratas e resolveu dividi-las com os vizinhos.
- Um enorme balão inflável repleto de baratas, ao invés de gás... é lindo isso, hein?
O robô estranhou que o outro tivesse compreendido a explicação e ainda conseguisse visualizar com tanta clareza. Será que existia inteligência dentro daquela carapaça?
Miraflores curtiu mais um bichinho fofo no Face, suspirou de prazer alienante, restaurou a consciência a um limiar mínimo e resolveu aprofundar a conversa com o companheiro.
- Você tem ideais, Bukakron?
- Pode crê cumpadi... tô cheio das ideias aqui... só que elas vem e vão quando eu tô na brisa.
- Não, eu disse ideais e não ideias, mas tudo bem, fala um pouco mais sobre essas ideias.
- Claro meu Deus, cola ai que eu te conto – olhou para os lados e falou em confidencialidade – tenho pensado muito na morte, sabia?
- Sério? Tipo o que?
- Sei lá. Desde que você me ressuscitou eu não consigo tirar aquilo da cabeça. Acho que tenho medo.
- Da morte?
- Não. De morrer.
- Uai, mas não é a mesma coisa?
Bukakron olhou para seu Deus um pouco decepcionado.
- Claro que não. Morrer é o ato, enquanto que a morte é o estado. – parecia tão óbvio que despontou uma dúvida sobre a divindade ou a inteligência do robô... ou as duas coisas.
- O que você sentiu?
- Quando morri ou quando estava morto?
Aquela conversa estava ficando nebulosa e Miraflores olhou novamente para a página do Face se perguntando se haveria exagerado na carga de emburrecimento. Concluiu que ainda aguentava mais uma dose. Leu uma frase linda onde Shakespeare condenava o uso da bomba atômica... três séculos antes da descoberta da fissão nuclear... deu de ombros e compartilhou a genialidade em sua página... gemeu de prazer.
- E aí?
- O que?
- O lance da morte.
- Ah, sim! – Miraflores resolveu começar tudo do zero – Por que você tem medo de morrer?
- Por que dói, oras. E vai saber como vou morrer da próxima vez.
- Da morte você não tem medo?
- Nããã... – lambeu uma pedra de sal por engano e engasgou extasiado – a morte é sussa.
- Tipo o que? – Miraflores curtiu uma mensagem religiosa e se conteve para não chorar de emoção.
- Ah! Nem sei... a última coisa que me lembro foi o chinelo vindo na minha direção e em seguida você já estava na minha frente. – deu uma lambida na lataria do robô pensando que fosse de açúcar.
- Não teve luz branca? – o robô compartilhou a mensagem de uma criança desaparecida na arca de Noé e se contorceu orgulhoso pelo próprio ato de bondade.
- Nem luz branca, nem de cor nenhuma – Bukakron botou o torrão de sal e a pedra de açúcar para se lamberem entre si. – mas por que essas perguntas agora?
- É que eu nunca tinha pensado nisso... acho que é por que robôs não morrem... ou será que morrem? Hummmm? – Miraflores gemeu enquanto escrevia uma frase magnífica sobre a beleza interior de um coco maduro e publicava em sua linha do tempo.
O robô arriscou a mais pesada das viagens... aquela que não oferecia retorno... deixou sua marca nas redes virtuais e abriu as portas do inferno.
- Eu sei lá, nunca fui robô. – Bukakron respodeu enquanto dava uma bronca na pedra de açúcar que se derretia toda para uma poça d´agua estranha e metida a conquistadora.
- Eu já fui... robô... – Miraflores teve seu último e infinito orgasmo desfalecendo inerte ao descobrir que haviam curtido sua publicação na linha do tempo.
Bukakron se assustou quando o robô amigo desabou ao seu lado. Tentou reativar seus circuitos com o pouco conhecimento adquirido sobre engenharia robótica, mas percebeu que o Facebook já havia comprometido todo o sistema. Não havia mais espaço para qualquer outro tipo de raciocínio ou processamento paralelo.
- O que aconteceu? – perguntou a barata bêbada e peluda se desmanchando em prantos ao lado de Bukakron.
- Miraflores morreu de overdose... de Facebook... acho que ele se suicidou.
O sol despontando além do oceano derramou sua luz fria sobre a carcaça inerte de um pequeno robô chamado Miraflores. 

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