quinta-feira, 20 de março de 2014

M5 - Miraflores embala corpos mutilados

Miraflores já foi programado e reprogramado tantas vezes que nem se recorda de suas memórias originais. Ou memória básica, como querem os analistas de robôs.
Claro que o Cálculo Zero Primordial deve estar por ai, em algum canto perdido do velho HD, mas onde? Provavelmente particionado entre a feliz lembrança de uma ida para revisão, ainda na garantia de um ano, e a horrível briga de facas com o vice-presidente que o demitira recentemente sob acusação de falsidade ideológica.
Mas tudo isso ficou para traz. Agora o que lhe interessa são os hóspedes, suas gorjetas e suas esquisitices, afinal, ele trabalha no universalmente conhecido Hotel das Cindo Estrelas Cadentes. Logo ali na borda do universo de onde se tem uma excelente visão panorâmica de todo o lado oeste – desde que você não tenha o azar de pegar um dos quartos de fundo, cujas janelas dão para o nada absoluto.

No 1300º andar do hotel, deslizando sobre o moderníssimo sistema de flutuadores eletromagnéticos bidirecionais do corredor infinito, ia começar a solucionar uma equação de 5º grau multi-dimensional, apenas para se distrair, quando chegou ao se destino.
Miraflores pressionou o discreto botão azul da suíte 1.309 com a dedicação de quem aciona o gatilho de uma arma de brinquedo. Tentou recordar se já havia assassinado alguém com uma dessas, mas não. Definitivamente nunca cometera crimes com uma campainha azul, o que certamente contou pontos no momento da sua contratação em um hotel repleto de portas e campainhas.

O presumível Blim-Blon ecoou suave do outro lado da porta e Miraflores quase sentiu saudades da época em que campainhas faziam Bzzzzz, mas passado é passado e não se fala mais no assunto... pelo menos enquanto não inventarem a máquina do tempo que leve ao passado, pois ao futuro é bem tranquilo, tanto para humanos quanto para robôs, frutas, hortaliças e minerais em geral. Basta não fazer nada que o tempo se encarrega de leva-los adiante.

Claro que o viajante pode ser mais exigente e se interessar por um salto mais longo no tempo. Digamos uns cem ou duzentos anos.
Essa ousadia também é possível desde que a criogenia se tornou reversível, embora ainda existam problemas técnicos na hora de localizar as almas desgarradas. Nem todas tem paciência de ficar paradinha ao lado daquele corpo azulado e saem perambulando feito almas penadas, visitando centros espíritas ou de Umbanda em busca de uma palavra amiga ou uma cachaça grátis. E mesmo depois de localizadas sempre tem aquelas que se recusam a grudar no corpo recém acordado aos gritos de “esse corpo não me pertence”. Mas não tem problema, afinal os robôs e os seres desalmados existem com ou sem alma e isso sempre foi assim.

A garota que abriu a porta vinha pendurada a um sorriso que destoava do momento e Miraflores nunca gostou de coisas, pessoas ou sorrisos que destoassem de momentos. Ainda se fosse um sorriso amarelo ou desconfiado e até um falso sorriso, tudo bem, mas jamais um sorriso de felicidade. Não às seis horas da manhã (considerando o fuso horário de -39 bilhões de anos luz em relação ao centro do universo)

Ela o convidou a entrar e seguiu à frente rebolando e pingando um pouco de óleo e sangue pelo caminho, mas nada que assustasse o pequeno robô. Não nessa quantidade.
Ao passarem pela cozinha da suíte, ele recusou o copo d´agua oferecida pela anfitriã, mas aceitou um pouco de WD40 e um guardanapo para limpar as manchas negras e vermelhas deixadas em forma de impressão digital ao redor da lata. “Isso vai dar o maior trabalho para limpar”, deduziu conferindo que havia sangue e graxa até no teto, mas deu de ombros, afinal ele não era faxineiro.
No quarto principal seu desconforto aumentou. Embora não conseguisse identificar o motivo, alguma coisa não se encaixava no cenário.
Sua intuição o guiou pela mão para que contornasse o automóvel estacionado no lugar da cama King Size. Soltou-se momentaneamente da intuição para não esbarrar nos corpos degolados e se posicionou onde originalmente deveria existir uma cabeceira da cama.
Tudo estava perfeitamente em ordem. O freio de mão puxado e os corpos com o cinto de segurança afivelado obedeciam perfeitamente à legislação de transito, mas alguma coisa não estava onde deveria estar ou vice-versa.
Nas mesinhas de cabeceira laterais, duas cabeças ocupavam o lugar onde originalmente haveria os abajures, que, aliás, estavam no chão, mas isso é só uma questão de gosto pessoal e, além do mais, cabeceira deve ser ocupada por cabeça - óbvio.

A moça do sorriso errado lhe pediu ajuda para acomodar os corpos nas malas e Miraflores titubeou, afinal tinha assumido um compromisso consigo mesmo de jamais interferir em assuntos humanos novamente. Até pediu ao gerente do hotel que lhe fornecesse uma descrição completa de tudo que ele deveria fazer (ou deixar de fazer). Revisou a lista e não havia qualquer restrição a ajudar hóspedes no momento de arrumarem suas malas. Até abria espaço para gentilezas ocasionais sempre que possível – e fazer malas era uma gentileza e tanto.
Em um excesso de cortesia adicional recomendou que os corpos fossem desmembrados em pedaços menores para caberem nas valises pequenas e ela concordou, deixando Miraflores satisfeitíssimo consigo mesmo por acertar na estratégia.
O próximo passo, após embalar os corpos, seria desmontar o carro para que fosse encaixotado em contêineres de madeira. Por sorte Miraflores dispunha de um software customizado para montadoras automobilísticas e isso, sem dúvida, costuma facilitar bastante o processo.

Passava das 10 horas da noite quando o robô finalmente se despediu da moça que, agora sim, podia sorrir feliz, embora já não houvesse sorriso.

Foi no hall dos elevadores, voltando para o estacionamento de eletrodomésticos onde teria um encontro com a geladeira, que Miraflores finalmente se deu conta daquilo que tanto o incomodava desde as seis horas da manhã. Nem titubeou. Deslizou veloz até a sala do gerente e relatou minuciosamente a grande irregularidade encontrada no interior da suíte 1.309.
Seu chefe ouviu atentamente e concordou que de fato a hóspede cometera um delito muito grave, mas fez uma última pergunta:
- Além da cama King Size desaparecida, você notou mais alguma irregularidade?
Miraflores queria fazer um pequeno comentário adicional, mas revisou novamente o código de conduta e seu manual de atribuições e definitivamente ninguém fizera qualquer recomendação sobre proibição de corpos desmembrados ou automóveis estacionados em lugares improváveis.
- Não senhor.  – o robô negou convicto – Todo o restante está perfeitamente dentro dos padrões do Hotel das Cindo Estrelas Cadentes.
E se retirou feliz por finalmente ter feito a coisa certa.

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