Bukakron sempre foi o mais belo, sábio e forte guerreiro de
sua espécie, os Medratens, mas o preconceito contra seres perfeitos era tão arraigado
em sua cultura que ele duvidava da própria sabedoria.. ou beleza... ou bravura.
- Poderia três atributos tão nobres coexistir em um único
ser? – propôs o enigma para si mesmo durante uma crise de baixa autoestima, mas
como não obtivesse réplica buscou uma segunda opinião junto aos seus botões.
Ele sempre ouvira dizer que botões eram ótimos conselheiros,
mas os seus, por uma razão que lhe fugia à compreensão, eram calados e introvertidos.
Não conversavam nem entre si.
Recorreu à literatura, aos deuses e à borra de chá de neve –
mais conhecida como neveomancia e que se destina à leitura do passado, futuro,
presente e presente mais que perfeito – em busca de resposta aos dilemas que
maceravam seus neurônios.
Os livros guardavam pouquíssimas e desatualizadas informações,
pois com o advento da internet ninguém mais os manipulava. Os deuses estavam muito
ocupados jogando dados com o universo e não lhe deram atenção. E a borra de
neve era tão previsível que ele duvidou de sua veracidade.
Foram as produções cinematográficas que mais o aproximaram da verdade. Descobriu que seres másculos, bonitos e inteligentes só podem ser heróis
completos em filmes classe B e de baixo orçamento, pois as grandes produções em
geral sabem democratizar a distribuição de papeis: Ao mocinho bonito se destina
o amor de uma bela companheira; a bravura é uma recompensa ao sofrimento dos
personagens injustiçados e a sabedoria se reserva às minorias étnicas.
Bukakron jamais permitiria que sua vida se transformasse em
um filme de mau gosto e decidiu buscar sua verdadeira vocação em uma grande
aventura épica.
Avançados cálculos de astrofísica e aerostática propuseram
que sua essência, enquanto ser universal, só poderia ser alcançada em um longínquo
planeta azul chamado Terra. Lá ele teria a oportunidade de provar seu único e
verdadeiro valor, fosse ele a beleza de um pavão, o gigantismo de um bravo
guerreiro ou a sabedoria de um ancião.
Após viajar treze bilhões de anos Medratenos – equivalentes a
meia hora terrestre – finalmente Bukakron chegou ao seu destino.
Dividido entre o temor do desconhecido e o fascínio de uma aventura logo descobriu que os
terráqueos possuíam uma estatura aproximadamente 200 vezes maior que a sua, mas
isso não seria problema se a sua aparência refletisse um anjo aos olhos humanos.
Percebeu que não era assim tão lindo quando a gigante feminino
olhou bem fundo em seus olhos e gritou: “Que bicho horrível. Deve ser uma
barata”.
Seu pequeno coração, orgulho ferido, falhou uma batida,
afinal sempre se reconhecera como um belo pedaço de mau caminho, mas ele não
estava ali para alimentar caprichos e sim em busca de seu verdadeiro eu. Agora,
eliminando um dos atributos, a beleza, pelo menos sabia que o destino lhe reservava
sabedoria ou espírito de guerreiro. O tempo, porém, não estava a seu favor e um
novo grito ecoou em seus minúsculos e sensíveis ouvidos: “Pisa nele!”.
Uma fração de segundos foi o que lhe restou para concluir e
usufruir que sim... ele era um ser iluminado e de enorme sabedoria, afinal de
contas que bravo guerreiro seria derrotado por uma sola de sandália colorida?
E morreu feliz com a sorte do autoconhecimento adquirido...
e mais sorte ainda por não ter ouvido o próximo grito:
- Bicho burro. Tinha
que ficar parado na minha frente?
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