quinta-feira, 27 de março de 2014

Emergência sim, estresse não

O alarme disparou trazendo calmaria ao mundo dos deuses. Tudo muito diferente dos velhos tempos em que as mínimas catástrofes universais logo resultavam em correria e gritos de desespero. Não mais!

Obviamente nem todas as entidades celestiais se acostumaram ao novo alerta de perigo entoado por cânticos sagrados. Os mais antigos preferiam o bom e velho ribombar de sinos histéricos, mas a gestão recém-empossada da CIPA decidiu inovar e determinou que barulho estressante não condizia com a serenidade do lugar e adotou o conceito de “alerta responsável” para denotar urgência. O lema da nova campanha de prevenção a acidentes deixava bem claro que “Emergência sem estresse é tudo de bom”.

A oração cantada já entrava em sua terceira repetição e, no entanto poucas divindades haviam deixado o templo principal, forçando as brigadas de incêndio a percorrerem minuciosamente cada salão sagrado em busca de deuses rebeldes que resistiam a abandonar o edifício. A entonação dos Monges Tenores Universais era tão relaxante que quando finalmente chegavam ao pátio principal perguntavam bocejando se aquilo era uma simulação.
- Não! Não é uma simulação.
- O que aconteceu então?
- O cara fez merda.
- Que “cara”? Que “fez”? Que “merda”?
- Não... “fez” é o verbo da frase.
- Ah, é! Eu ainda estou meio dormindo.
- Mas então, o tal do Miraflores provocou a maior orgia desde o Festival de Woodstock.
- Os humanos estão abandonando as redes virtuais? Isso é ótimo, deixa eles se divertirem como nos velhos tempos.
- Humanos? Não! Orgia de baratas.
- Baratas? E desde quando sexo entre baratas é motivo de alarde.
- Desde que TODAS procriaram ao mesmo tempo e inundaram o universo de baratinhas.
- Ainda não vejo motivo para alarde. Manda o Deus da tecnologia, aquele nerd esquisito, resolver o problema.
- Sim, mas foi ele mesmo quem se desesperou e acionou o alarme... se bem que eu também estava doido para testar esse novo sistema.
- Ele rompeu o lacre da caixinha vermelha? Como ele quebrou o vidrinho? Com a mão?
- Não, ele usou aquele martelinho que fica preso à caixinh...
- SOCOOOOOROOOOOO! – gritou o Deus das artes dramáticas completamente nu – Uma barata entrou na minha toga.
- É... acho que temos motivo para alarde sim.
O grito do desesperado foi mais efetivo que o sistema de “Emergência sem estresse” e o pátio ficou pequeno de um momento para o outro com tantos deuses se perguntando o que tinha acontecido.
O Deus do vinho sugeriu que aproveitassem a presença maciça de divindades para fazer um brinde, mas todos mandaram que ele calasse a boca.
Um anjo matava baratas com a própria harpa ao melhor estilo rockeiro performático quando a coisa pegou fogo.
O jarro grego que abastecia a divina fonte de agua cristalina subitamente começou a verter baratas e as ninfas que nadavam graciosas e sedutoras se agarraram aos sátiros tal e qual peões de rodeio em final de campeonato.
O Deus da guerra queria encher o peladão de porrada, a deusa da beleza, que era alérgica a baratas, ficou toda empipocada, o deus do mundo subterrâneo, se sentindo em casa, começou a dançar e o deus do empreendedorismo fazia cálculos em busca de uma formula para ganhar dinheiro com aquilo.
Foi quando as baratas, hipnotizadas por uma doce melodia de flauta, começaram a se atirar no desfiladeiro em direção à terra dos homens.
Todos correram atônitos para a divina borda e se perguntaram desconfiados.
- Quem fez o milagre?
- Fui eu – respondeu a figura alta, magra e improvável, vestindo uma toga xadrez prateada e um enorme par de óculos emoldurando um rosto repleto de espinhas que remetia a um alienígena nerd.
- Como?
- Vocês não conhecem o Flautista de Hamelin? Pois eu lhes apresento o Flautista Miraflores.
- Sim, mas ele hipnotizava ratos e não baratas.
- Apenas uma questão de ajuste na tonalidade.
- Bom! – resmungou o deus do vinho ainda magoado por recusarem seu brinde – Já que o problema está resolvido vamos dormir.
- Tem... um probleminha... pequeno, mas é um probleminha – falou o deus da tecnologia com a voz mais relutante jamais permitida a uma divindade.
O deus da guerra escolheu um porrete ao acaso. Só por via das dúvidas, para o caso de não concordar que o problema fosse tão pequeno assim.
- O Miraflores impôs algumas condições para resolver a infestação cascuda.
O deus da guerra levantou o porrete.
- Eu sabia! – gritou ameaçador – Vou encher esse veado de porrada e depois acabo com aquele robô de merda.
- Não é uma boa ideia – interviu o deus da sabedoria – Ainda temos as baratas pairando no ar.
- Elas já estão mortas mesmo... não há mais problema.
- Não foi uma figura de linguagem. Elas “ESTÃO PAIRANDO NO AR”... desceram voando para a terra dos homens e podem voltar a qualquer momento. Você nunca leu a história do Flautista de Hamelin?
O porrete congelou.
- Chamem o sindicato dos deuses para intermediar as negociações – sugeriu o deus da sabedoria – e você – apontou para o Deus Nerd – pare de fazer milagres, pelo amor de Deus!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário é bem vindo, desde que seja um elogio, uma ofensa ou um link de propaganda. Não aceitaremos pedidos de empréstimo financeiro.
Seja discreto ao xingar a mãe do autor, caso contrário será excluido