O alarme disparou trazendo calmaria ao mundo dos deuses. Tudo
muito diferente dos velhos tempos em que as mínimas catástrofes universais logo
resultavam em correria e gritos de desespero. Não mais!
Obviamente nem todas as entidades celestiais se acostumaram
ao novo alerta de perigo entoado por cânticos sagrados. Os mais antigos preferiam
o bom e velho ribombar de sinos histéricos, mas a gestão recém-empossada da
CIPA decidiu inovar e determinou que barulho estressante não condizia com a
serenidade do lugar e adotou o conceito de “alerta responsável” para denotar urgência.
O lema da nova campanha de prevenção a acidentes deixava bem claro que “Emergência
sem estresse é tudo de bom”.
A oração cantada já entrava em sua terceira repetição e, no
entanto poucas divindades haviam deixado o templo principal, forçando as
brigadas de incêndio a percorrerem minuciosamente cada salão sagrado em busca
de deuses rebeldes que resistiam a abandonar o edifício. A entonação dos Monges
Tenores Universais era tão relaxante que quando finalmente chegavam ao pátio
principal perguntavam bocejando se aquilo era uma simulação.
- Não! Não é uma simulação.
- O que aconteceu então?
- O cara fez merda.
- Que “cara”? Que “fez”? Que “merda”?
- Não... “fez” é o verbo da frase.
- Ah, é! Eu ainda estou meio dormindo.
- Mas então, o tal do Miraflores provocou a maior orgia
desde o Festival de Woodstock.
- Os humanos estão abandonando as redes virtuais? Isso é ótimo,
deixa eles se divertirem como nos velhos tempos.
- Humanos? Não! Orgia de baratas.
- Baratas? E desde quando sexo entre baratas é motivo de
alarde.
- Desde que TODAS procriaram ao mesmo tempo e inundaram o
universo de baratinhas.
- Ainda não vejo motivo para alarde. Manda o Deus da
tecnologia, aquele nerd esquisito, resolver o problema.
- Sim, mas foi ele mesmo quem se desesperou e acionou o
alarme... se bem que eu também estava doido para testar esse novo sistema.
- Ele rompeu o lacre da caixinha vermelha? Como ele quebrou
o vidrinho? Com a mão?
- Não, ele usou aquele martelinho que fica preso à caixinh...
- SOCOOOOOROOOOOO! – gritou o Deus das artes dramáticas completamente
nu – Uma barata entrou na minha toga.
- É... acho que temos motivo para alarde sim.
O grito do desesperado foi mais efetivo que o sistema de
“Emergência sem estresse” e o pátio ficou pequeno de um momento para o outro com
tantos deuses se perguntando o que tinha acontecido.
O Deus do vinho sugeriu que aproveitassem a presença maciça
de divindades para fazer um brinde, mas todos mandaram que ele calasse a boca.
Um anjo matava baratas com a própria harpa ao melhor estilo
rockeiro performático quando a coisa pegou fogo.
O jarro grego que abastecia a divina fonte de agua cristalina
subitamente começou a verter baratas e as ninfas que nadavam graciosas e
sedutoras se agarraram aos sátiros tal e qual peões de rodeio em final de
campeonato.
O Deus da guerra queria encher o peladão de porrada, a deusa
da beleza, que era alérgica a baratas, ficou toda empipocada, o deus do mundo
subterrâneo, se sentindo em casa, começou a dançar e o deus do empreendedorismo
fazia cálculos em busca de uma formula para ganhar dinheiro com aquilo.
Foi quando as baratas, hipnotizadas por uma doce melodia de
flauta, começaram a se atirar no desfiladeiro em direção à terra dos homens.
Todos correram atônitos para a divina borda e se perguntaram
desconfiados.
- Quem fez o milagre?
- Fui eu – respondeu a figura alta, magra e improvável,
vestindo uma toga xadrez prateada e um enorme par de óculos emoldurando um
rosto repleto de espinhas que remetia a um alienígena nerd.
- Como?
- Vocês não conhecem o Flautista de Hamelin? Pois eu lhes
apresento o Flautista Miraflores.
- Sim, mas ele hipnotizava ratos e não baratas.
- Apenas uma questão de ajuste na tonalidade.
- Bom! – resmungou o deus do vinho ainda magoado por
recusarem seu brinde – Já que o problema está resolvido vamos dormir.
- Tem... um probleminha... pequeno, mas é um probleminha – falou
o deus da tecnologia com a voz mais relutante jamais permitida a uma divindade.
O deus da guerra escolheu um porrete ao acaso. Só por via
das dúvidas, para o caso de não concordar que o problema fosse tão pequeno
assim.
- O Miraflores impôs algumas condições para resolver a
infestação cascuda.
O deus da guerra levantou o porrete.
- Eu sabia! – gritou ameaçador – Vou encher esse veado de
porrada e depois acabo com aquele robô de merda.
- Não é uma boa ideia – interviu o deus da sabedoria – Ainda
temos as baratas pairando no ar.
- Elas já estão mortas mesmo... não há mais problema.
- Não foi uma figura de linguagem. Elas “ESTÃO PAIRANDO NO AR”...
desceram voando para a terra dos homens e podem voltar a qualquer momento. Você
nunca leu a história do Flautista de Hamelin?
O porrete congelou.
- Chamem o sindicato dos deuses para intermediar as
negociações – sugeriu o deus da sabedoria – e você – apontou para o Deus Nerd –
pare de fazer milagres, pelo amor de Deus!
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