O vice-presidente da empresa parou ao lado do engenheiro de
robótica e deu-lhe uma pequena mordida na orelha direita – estava de bom humor
e excitado com a proximidade da sexta-feira.
O engenheiro esperou o chefe afastar a boca e considerou a
possibilidade de gemer “ui” bem baixinho antes de limpar a baba melequenta deixada
no ouvido, mas preferiu não fazer uma coisa e nem outra. Simplesmente fingiu
que nada tinha acontecido.
- Em nossa ultima
conversa você comentou sobre o vírus de um conselheiro do Tribunal de
Contas do Estado aplicado no robô por engano – o vice disparou ao acaso, também
fingindo que nada tinha feito. Provavelmente esperava outra reação do
funcionário. Um agradecimento, talvez? Sabe-se lá o que vai pela cabeça de um
vice-presidente bem humorado, afinal isso é tão raro.
- Eu já consertei meu erro, senhor.
- Tenho certeza que sim, mas você sabe o que faz um conselheiro
do Tribunal de Contas do Estado?
- Não.
- Nem eles. – o chefe realmente estava de bom humor – Mas diz
ai, o que está acontecendo com o Miraflores agora?
- Coloquei o robô novamente na função de observador de
flores dentro da estufa.
- Está funcionando bem?
- Não sei ainda. Acabei de restaurar o sistema operacional
dele.
- Vamos observar juntos então.
O engenheiro não estava gostando nada daquilo, mas emprego anda
tão difícil ultimamente que ele simplesmente entrelaçou os dedos do chefe com a
maior formalidade possível.
Dentro da estufa Miraflores acendeu um olho robótico, depois
o outro e finalmente o terceiro.
Sua memória RAM recém-iniciada não guardava informações de
eventos anteriores, mas em algum lugar do HD deveria haver um sistema de backup
ou recover onde pudesse acessar detalhes do seu estagio anterior.
Não daria tempo.
A esteira repleta de flores começou a se movimentar à sua
frente e ele deveria selecionar as mais bonitas para replantio. Era sua função
de robô observador e seletor de flores.
Seus triplos sensores CCD capturavam imagens e cores com uma
qualidade tão boa que seria inimaginável para os olhos humanos e ele sabia
disso. E sabia também que não poderia falhar, mas, por outro lado, também não
poderia ignorar sua vida robótica anterior a essa. E se na versão anterior ele tivesse
ocupado a função de cantor de karaokê? Ou, pior, agente de marketing ativo em Call
Center? Quantas pessoas ele teria acordado no sábado de manhã para fazer pesquisas
de opinião?
Ele precisava conhecer detalhes de suas vidas passadas e para
isso deveria desempenhar duas tarefas ao mesmo tempo: classificar flores e vasculhar
suas memórias pregressas, de tal forma que uma atividade não interferisse na
outra.
Pensou, calculou, compilou e descobriu que nesse exato
momento estava infectado com um vírus bem apropriado. As novas características implantadas
em seu sistema pelo engenheiro de robótica lhe permitiam fazer varias coisas ao
mesmo tempo.
Partiu robô!
Abriu uma geladeira que estava no fundo da estufa e pegou um
refrigerante. Correu até o armário dos funcionários e se apoderou de um saco de
salgadinhos. Na prateleira da equipe de engenharia encontrou o celular que
precisava... abriu o aplicativo do Face e começou a digitar.
Quando o chefe dos robôs lhe perguntou o que estava
acontecendo ele gritou: “Eu te odeio” e se trancou em um armário se recusando a
abrir a porta - por mais que tentassem arromba-la.
Do lado de fora da estufa o engenheiro de robótica, sozinho,
sangrava pela orelha direita:
- Adolescente? Eu transformei o Miraflores em um adolescente?
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