sábado, 22 de março de 2014

M7 - Milagre Miraflores

A oração aproxima o fiel de sua divindade trazendo paz interior e alivio para o sofrimento. Jamais o contrário, aprendeu Miraflores.
A teoria é tão simples que não deveria representar maiores desafios para robôs quânticos conhecedores de inúmeras religiões e seus protocolos secretos (como o momento certo de se levantar e abaixar durante o culto); proficientes em ladainhas e rituais sagrados; e muito mais, embora muito mais possa parecer pretensão e dificultar a postura de humildade requerida por algumas supremas entidades religiosas.
Existe, porém, um detalhe. Tudo isso é muito óbvio para seres de carbono que carregam consciência e espiritualidade desde o nascimento, mas e quanto aos bichos sem alma e humanoides criados a partir da lógica racional e distante da centelha divina?
Miraflores estava exatamente neste ponto de auto esculhambação mística, e se perguntando se algum Deus aceitaria entidades desalmadas – além dos deuses do mal –, quando se deu conta de que precisava de um sinal divino. Qualquer coisa básica como uma voz de trovoada vindo do nada e disposta a um diálogo casual; águas que se dividissem em duas e facilitassem a travessia de áreas alagadas; ou simplesmente um coração que começasse a bater sem mais nem menos em seu peito de lata. Tudo sem muita pretensão.
A verdade é que as coisas não estavam saindo exatamente como ele planejara em um momento de desespero (que é o momento ideal para estas tomadas de decisões).
Já fazia um bom tempo que ele rezava – apesar de não saber quanto seria um tempo bom em termos de reza – e sequer tinha a certeza de estar seguindo o protocolo de seu Deus. Fosse ele qual fosse.
Definitivamente precisava de um sinal.
Olhou para cima e lembrou que deveria se acostumar aos jargões religiosos. A partir daquele momento jamais olharia para cima novamente... olharia para o céu, pois alguém muito criativo tinha inventado que os deuses moravam no espaço acima de suas cabeças (jamais abaixo, nem ao lado e muito menos dentro de si mesmo ou em outras dimensões).
Olhou para o céu e não percebeu qualquer sinal digno de um Deus, apenas uma imensidão azul repleta de beleza. Certamente os humanos diriam que isso era obra de Deus, mas ele preferiu classificar como algo de belo padrão estético ou simplesmente um ótimo lugar para soltar pipas, voar de asa delta e paraquedas, ou qualquer atividade que precisasse de muito, muito espaço – de qualquer maneira era assunto para outro momento de adaptação humanoide.
Olhou para o sol nascendo no horizonte e imitou um suspiro humano... “bonitinho, mas insuficiente como milagre”.
Uma sandália inconveniente atrapalhou seu exercício místico ao se mexer sozinha diante de seus três olhos biônicos. Um deles afirmou que se tratava de uma ilusão de ótica, o outro alegou insanidade das leis da física e o terceiro considerou a possibilidade de que algo muito estranho estava acontecendo e que até poderia representar a manifestação de uma entidade carente tentando chamar atenção.
- Será? – pensou consigo mesmo.
Levantou o objeto e se decepcionou. Era apenas uma barata decapitada, mas que ainda se movimentava energicamente, afinal esses bichos conseguem sobreviver por vários dias sem a cabeça.
Lembrou-se da morfologia dos insetos e se animou com uma possibilidade científica:
- Seria viável reimplantar a cabeça de uma barata ao corpo?
Já que seu Deus não estava para milagres e não havia nada melhor a fazer, resolveu se divertir.
Abriu um compartimento de seu braço robótico, ejetando lentamente o bisturi destruidor de coisas que existem para serem odiadas.
Baratas são coisas que existem para serem odiadas – lembrou-se –, portanto basta reverter o processo de sua ferramenta e...voilá... a barata estava inteira novamente.
Miraflores olhou para a barata restaurada que não se intimidou e olhou de volta. E além de olhar de volta ainda falou de volta, embora o robô não tivesse lhe dado qualquer intimidade ou permissão para interação sonora:
- Milagre! Teu milagre me trouxe de volta à vida. – Bukakron, que havia morrido ao levar uma chinelada em “Agrandeza das coisas, dos fatos e dos atos”, reverenciou seu novo deus: o sagrado Miraflores.

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