sexta-feira, 21 de março de 2014

M6 -Miraflores fez a coisa errada do jeito certo

Há uma ou duas coisas no ser humano que sempre confundem Miraflores. Uma delas é o ritual de enfiar o dedo no nariz quando estão com seus veículos parados em um cruzamento esperando que as luzes mudem de cor. Aparentemente a massagem intra-nasal estimula a região do cérebro responsável pela agressividade, pois partem em alta velocidade ofendendo e ameaçando uns aos outros assim que recebem permissão da luz verde.

O outro mistério indecifrável entre os homens é a sua falta de coerência com as próprias regras. Jamais tente entende-las ou segui-las, sugere o pequeno robô que já experimentou fazer a coisa certa do jeito certo e foi desencorajado. Em seguida apelou para a coisa certa do jeito errado e foi punido. E agora está sendo julgado por fazer a coisa errada do jeito certo... Vai entender.

Privado de liberdade e trancafiado em um depósito de ferro velho entre os piores malfeitores do universo – o carro de luxo estacionado à sua direita foi condenado por assassinar uma família inteira ao se desentender e bater de frente com uma locomotiva; a guilhotina à sua frente foi desativada após decepar a cabeça de um tipógrafo no interior de uma gráfica enquanto imprimia cartazes de “procura-se um cãozinho fofo perdido”; e a serra elétrica à esquerda cortou o braço de um marceneiro sem dó e nem piedade logo após destruir uma árvore milenar ameaçada de extinção – Miraflores espera julgamento pelo crime de cumplicidade no assassinato de um cantor de Karaokê e uma atendente de Call Center, com o agravante de desmontar um veículo caríssimo e acobertar a fuga de sua parceira para outra dimensão.

Justo ele que desmaiou para não machucar um brotinho vegetal recém-nascido, agora responde pela violação da primeira diretriz de Asimov em um total desrespeito para com o Manual de Robótica.

Mas agora já chega!
Miraflores chegou ao limite de sua paciência e após abusar da capacidade computacional de seus qubits, analisar um numero muito grandão de probabilidades estatísticas e comparar suas reações lógicas à emocionalidade dos humanos, chegou à conclusão definitiva de que a solução para seus problemas só viria através de superstições, mitos, crenças infundadas, exageros emocionais e toda sorte de irracionalidade utilizada pelos polegares opositores quando se desesperam.

Em um último esforço para acertar ele finalmente decidiu fazer a coisa errada do jeito errado.

Aproximou-se de uma montanha de ferragens, imaginando que ali seria o melhor lugar para encontrar o Deus dos Robôs, e rezou. Rezou como nenhum outro ser inanimado jamais teria rezado antes.

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