Há uma ou duas coisas no ser humano que sempre confundem
Miraflores. Uma delas é o ritual de enfiar o dedo no nariz quando estão com
seus veículos parados em um cruzamento esperando que as luzes mudem de cor. Aparentemente
a massagem intra-nasal estimula a região do cérebro responsável pela
agressividade, pois partem em alta velocidade ofendendo e ameaçando uns aos
outros assim que recebem permissão da luz verde.
O outro mistério indecifrável entre os homens é a sua falta
de coerência com as próprias regras. Jamais tente entende-las ou segui-las,
sugere o pequeno robô que já experimentou fazer a coisa certa do jeito certo e
foi desencorajado. Em seguida apelou para a coisa certa do jeito errado e foi
punido. E agora está sendo julgado por fazer a coisa errada do jeito certo...
Vai entender.
Privado de liberdade e trancafiado em um depósito de ferro
velho entre os piores malfeitores do universo – o carro de luxo estacionado à sua
direita foi condenado por assassinar uma família inteira ao se desentender e
bater de frente com uma locomotiva; a guilhotina à sua frente foi desativada
após decepar a cabeça de um tipógrafo no interior de uma gráfica enquanto imprimia
cartazes de “procura-se um cãozinho fofo perdido”; e a serra elétrica à
esquerda cortou o braço de um marceneiro sem dó e nem piedade logo após
destruir uma árvore milenar ameaçada de extinção – Miraflores espera julgamento
pelo crime de cumplicidade
no assassinato de um cantor de Karaokê e uma atendente de Call Center, com
o agravante de desmontar um veículo caríssimo e acobertar a fuga de sua
parceira para outra dimensão.
Justo ele que desmaiou
para não machucar um brotinho vegetal recém-nascido, agora responde pela
violação da primeira diretriz de Asimov em um total desrespeito para com o
Manual de Robótica.
Mas agora já chega!
Miraflores chegou ao limite de sua paciência e após abusar
da capacidade computacional de seus qubits, analisar um numero muito grandão de
probabilidades estatísticas e comparar suas reações lógicas à emocionalidade
dos humanos, chegou à conclusão definitiva de que a solução para seus problemas
só viria através de superstições, mitos, crenças infundadas, exageros emocionais
e toda sorte de irracionalidade utilizada pelos polegares opositores quando se
desesperam.
Em um último esforço para acertar ele finalmente decidiu
fazer a coisa errada do jeito errado.
Aproximou-se de uma montanha de ferragens, imaginando que
ali seria o melhor lugar para encontrar o Deus dos Robôs, e rezou. Rezou como
nenhum outro ser inanimado jamais teria rezado antes.
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