segunda-feira, 24 de março de 2014

Um novo Deus no pedaço

No Mundo dos Deuses todos se acotovelavam apertadinhos à beira do precipício, de onde se tem a melhor visão da Terra dos homens, tomando muito cuidado para não empurrar a divina galera ribanceira abaixo. Seria bastante difícil explicar uma chuva de deuses em plena segunda-feira.
Mas eles até que eram organizadinhos, mantendo os menores junto às deusas na fileira da frente enquanto o restante se empoleirava atrás da melhor maneira possível para não perder um só movimento do que acontecia lá embaixo.
Tudo ia divinamente bem – como é de se esperar que ocorra entre deuses educados – até que alguém fez uma coisa muito feia deixando todo o restante com cara de culpado. Não dava para esconder o constrangimento. Ninguém ousava sequer respirar. Uns começaram a olhar para o alto, outros brincavam com as folhinhas secas no chão e tinha até aquele que fingia digitar no celular, embora fosse público e sabido que sinal de operadora só funciona bem dentro de presídios e penitenciarias de segurança máxima.
O deus da guerra perdeu a paciência:
- Muito bem! Quem foi o engraçadinho?
Todos se voltaram automaticamente para o deus do vinho, mas ele se defendeu com profissionalismo.
- Não fui eu. Empenho minha melhor safra. – o termo “empenhar” tem a mesma credibilidade entre deuses que a expressão “tô falando sério, pô!” entre os homens e todos acreditaram em sua palavra.
- Vocês parecem humanos... – a deusa da moralidade ofendia seus pares quando foi interrompida por uma voz insegura e juvenil.
- Fui eu.
A figura alta, magra e improvável, vestindo uma toga xadrez prateada e um enorme par de óculos emoldurando um rosto repleto de espinhas parecia um alienígena nerd.
- Quem é você? – todos perguntaram em coro.
- Deus da tecnologia, muito prazer.
- E o que você pensa que esta fazendo, deus da... tecnologia? Existe isso agora?
- Eu só realizei um milagre... alias meu primeiro milagre... fiz errado?
- Perae! – o deus agrário, que também acumula a função de deus dos insetos, coçou a cabeça e se conteve para não explodir com o novato – Você ressuscitou uma das minhas baratas sem permissão?
- Nã..não! Eu só fiz o milagre que o Miraflores pediu.
- Negativo! – o esforço para não defenestrar o jovem deus era evidente – O Miraflores pediu para “ver” um milagre e não “fazer” um milagre... percebe a diferença?
- Aaaahhh!
- E além do mais não se pode sair fazendo milagres assim sem mais e nem menos. Existem regras básicas que diferenciam um bom Deus de um bruxo qualquer... você quer que te confundam com o Harry Potter?
A proposta não pareceu de todo ruim para o nerd metido a aprendiz de Deus, mas pela entonação da pergunta pareceu-lhe que uma negativa seria mais bem contextualizada.
Para alívio geral um Deus bonito, irradiando bondade infinita, interviu, acolheu o novato com seu manto de sabedoria e falou:
- Quer algumas dicas?
Arpas divinas ecoam por alto-falantes ocultos em todo o universo quando o Deus bonito fala e o jovem, diagnosticado com déficit de atenção, se dispersou olhando para os lados tentando entender de onde saia o som.
- Foco! – repreendeu o Deus bonito com doçura.
- Cla... claro! Quero as dicas sim Senhor. – respondeu o aprendiz sem se desligar completamente do misterioso efeito sonoro, afinal é fácil esconder caixas de som entre nuvens, mas por onde passariam os fios?
- Nunca transforme seus filhos em santos milagreiros, pois isso causa uma confusão da porra.
- Podemos falar palavrão, Senhor?
- Agora podemos... já expliquei isso em algum post anterior... mas voltando aos ensinamentos sagrados, também tenha cuidado com a expressão “criado à sua imagem e semelhança”.
- Por que?
- Teve Deus que foi por esse caminho e causou o maior rebuliço entre seus fiéis. Concluíram que seu Deus deveria se parecer com eles... cor de cabelo, olhos, pele, etc.
- Mas não seria o contrário? Quer dizer.. “eles” é que deveriam se assemelhar a seu Deus no sentido espiritual.
- Deveriam, mas meteram os pés pelas mãos. Os fiéis mais poderosos, brancos, sarados e de olhos azuis se apropriaram da santa imagem e não sobrou para mais ninguém.
- Mas isso é sério... como ficam as diferentes etnias no meio dessa iconografia religiosa preconceituosa?
- Igual às crianças não brancas que são obrigadas a brincar com Barbies loiras.
- Deve causar algum tipo de crise de identidade religiosa, será que não?
- Não sei se as crianças misturam brincadeiras de boneca com crenças espirituais. No máximo vão fazer chapinha e pintar o cabelo de amarelo quando crescerem.
- Não! Estou falando dos fieis que recebem um Deus alheio à sua cultura como imposição religiosa. Deve confundi-los.
- Ah! Isso também.
O Deus bonito deu de ombros resignado e mudou de assunto.
- Só mais uma sugestão. – o Mestre assumiu um ar grave e o jovem aprendiz entendeu que aquele seria o mais importante ensinamento de todos – Jamais permita interlocutores entre você e seus fieis.
- Por quê?
- Eles distorcem suas palavras e ensinamentos para benefício próprio e ao final, além de se apropriarem de sua identidade, ainda disseminam ódio, conflitos religiosos e toda sorte de hostilidade em seu nome.

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