Não é fácil para um robô sair do armário. Principalmente
quando está na adolescência, passando por crises de identidade e com seus fluidos
hormonais de ultima geração vagando descontrolados por tubinhos robóticos
coloridos espalhados pelo corpo. Miraflores não era mais o mesmo desde a última
atualização de sistema, mas “foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão
sentidos, que ele dominou seu asco” (desculpa ai, Chico Buarque, mas não deu
para resistir). Deu-se por vencido assim que o engenheiro de robótica informou sutilmente que cortaria sua mesada e seu acesso à internet caso ele não se
comportasse como um robô adulto.
A sequencia de acontecimentos ficou confusa para Miraflores quando
a porta se abriu e lhe espetaram um pendrive na parte traseira, logo abaixo do
quadril. A sensação foi estranha a principio, mas não demorou um minuto para se
acostumar e perceber que o departamento estava um caos.
Extintores de incêndio com data de validade vencida, usuários
curtindo páginas de bichinhos fofos na internet, funcionários voltando do
banheiro sem lavar as mãos.
- Você! – Miraflores apontou o bracinho robótico para um chefe
de sessão – Pode se apresentar ao departamento de recursos humanos. Está
despedido!
- Por quê? O que eu fiz?
- Nada. Só estou treinando a impostação de voz e minha
autoridade.
- Então eu não estou despedido?
- Está sim. Você é um ótimo desempregado.
Em seguida caminhou enérgico até a folha de plantões
trabalhista e cancelou todas as férias e feriados não obrigatórios do ano.
Quando um trabalhador tentou protestar, Miraflores reduziu o
horário de almoço de toda a repartição, como retaliação, e ainda ameaçou
retirar as revistas masculinas disponíveis nos banheiros.
A salva de palmas da plateia feminina foi motivo suficiente para
que ele também proibisse protestos sem sutiã na porta da empresa a partir daquele
momento.
Alguém questionou se ele teria autoridade suficiente para
tomar estas medidas e ficou proibido de participar das próximas brincadeiras de
amigo secreto da empresa.
A notícia sobre suas ações enérgicas e autoritárias se
alastraram de forma tão negativa pelos corredores que obrigou o vice-presidente
a comparecer pessoalmente à sala do engenheiro de robótica.
- Essas ações tresloucadas do Miraflores e todas as
reclamações dos funcionários... – o vice interrompeu a frase e tocou
gentilmente o curativo na orelha direita do engenheiro – isso incomoda?
- Eu consegui reimplantar a maior parte da orelha e os
sedativos amenizam a dor, então... não... O curativo não incomoda.
- Eu não perguntei sobre o curativo. Perguntei se as ações
tresloucadas do Miraflores e as reclamações dos funcionários incomodam.
- Ah! Eu acredito que teremos pedidos de demissão em massa
se ninguém contiver esse robô maluco.
- Mas afinal de contas, quem ele pensa que é? Deus?
- Acho que sim! Eu implantei um vírus de vice-presidente no
Miraflores.
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