terça-feira, 11 de março de 2014

M2 - O conteúdo da semente sob a ótica de Miraflores

Miraflores olhava para aquela semente há muito tempo. Tempo demais, para falar a verdade.
Durante 5 dias, 22hs e 30 minutos seus três olhos robóticos não se desviaram uma única vez daquele pequeno pedaço orgânico... e isso é paranoico.
Mesmo para um robô é muito tempo. Tempo suficiente para apertar 518.411 parafusos sextavados; atender a quase 200 pesquisas de marketing telefônico, apagar os 400 mil spam recebidos na semana ou flertar com meia dúzia de geladeiras duplex, por que ninguém é de ferro, ou melhor, ele é de ferro, mas foi programado por um engenheiro de robótica muito pervertido e apaixonado por fêmeas altas e frígidas.
Mas voltando às sementes, até que não são más companhias, desde que você aprecie o silencio. Aliás, são muito adequadas se você estiver à procura de algo que não leia poesia, embora também não brinquem e nem lavem banheiro. Ou então você pode se interessar por uma delas se gostar de coisas secas, esbranquiçadas, minúsculas, sem cheiro nem movimento.
Precisa de um lugar para pendurar a roupa? Sementes não servem a este propósito.
Carro... você precisa de um motorista particular? Elas não têm altura suficiente para dirigir.
Miraflores olhou para o teto da estufa como quem olha para o teto de uma estufa e finalmente concluiu que sementes são coisas para serem odiadas.
Abriu um compartimento de seu braço robótico, ejetando lentamente o bisturi destruidor de coisas que existem para serem odiadas, mas a ferramenta letal emperrou no meio do caminho com um barulho de pão, levantando uma questão engraçada: e se ele estivesse em um campo de batalha precisando urgentemente daquela arma para se proteger de um ataque de coisas que existem para serem odiadas?
Mas Miraflores é um robô, e robôs não acham graça de questões engraçadas.
Utilizando a segunda lei de Newton calculou o torque necessário para eliminar o problema e uma bolinha de pão saltou longe, liberando a ferramenta num solavanco. Miraflores sentiu-se tentado a calcular a trajetória do objeto lançado horizontalmente em queda livre, mas tinha coisas mais importantes a fazer.
Aproximou o bisturi da semente disposto a destruí-la em mil pedaços, quando avistou o brotinho nascendo inocente na lateral.
Seu sistema de proteção à vida desarmou toda a parafernália interna e desabou inerte (algo equivalente a um desmaio de humanos afrescalhados que não podem ver sangue sem dar chilique).

Do lado de fora da estufa, meia dúzia de observadores anônimos quedaram embasbacados com o desfecho da novela de uma semana. Era praticamente uma torcida que se reunia diariamente para ver o robô observador de sementes.
- Alguém consegue me dizer que merda foi essa? – perguntou o vice-presidente da empresa que apenas passava pelo local.
- O robô desmaiou! – respondeu o engenheiro de robótica com sua melhor inocência (aliás, ele só usava esse modelo de inocência em ocasiões muito especiais e considerou que era o caso no momento).
- Quer dizer... – o vice-presidente olhou ao redor para certificar-se de que não era uma pegadinha do presidente que, aliás, era muito gozador – ...quer dizer que eu invisto milhões de dinheiro em um projeto e o resultado é um robô boiola?
- Sim.. não... a gente está fazendo umas melhorias nele.
- Melhorias? – o homem olhou novamente em volta, só podia ser pegadinha – Esse robô já foi pior que isso?
- Sim... não... ele não era muito prático e lá no primeiro blog do Miraflores nós decidimos infectá-lo com um vírus da ambição para fazer com que produzisse mais.
- Produzisse mais? – o vice espumava de raiva e limpou a boca na camisa de um estagiário desavisado... foi a dica para que a rodinha de curiosos se dispersasse antes que sobrasse para todo mundo – Produzisse mais observando semente durante uma semana e sem fazer mais nada de útil?
- Eu... – o engenheiro de robótica considerou a possibilidade de usar o modelo de inocência especial novamente, mas achou que seria exagero gastar todo o estoque em um único dia – ... eu apliquei no Miraflores o vírus de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado por engano.

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