Miraflores olhava para aquela semente há muito tempo. Tempo
demais, para falar a verdade.
Durante 5 dias, 22hs e 30 minutos seus três olhos robóticos não
se desviaram uma única vez daquele pequeno pedaço orgânico... e isso é paranoico.
Mesmo para um robô é muito tempo. Tempo suficiente para
apertar 518.411 parafusos sextavados; atender a quase 200 pesquisas de
marketing telefônico, apagar os 400 mil spam recebidos na semana ou flertar com
meia dúzia de geladeiras duplex, por que ninguém é de ferro, ou melhor, ele é
de ferro, mas foi programado por um engenheiro de robótica muito pervertido e
apaixonado por fêmeas altas e frígidas.
Mas voltando às sementes, até que não são más companhias, desde
que você aprecie o silencio. Aliás, são muito adequadas se você estiver à
procura de algo que não leia poesia, embora também não brinquem e nem lavem banheiro.
Ou então você pode se interessar por uma delas se gostar de coisas secas,
esbranquiçadas, minúsculas, sem cheiro nem movimento.
Precisa de um lugar para pendurar a roupa? Sementes não
servem a este propósito.
Carro... você precisa de um motorista particular? Elas não
têm altura suficiente para dirigir.
Miraflores olhou para o teto da estufa como quem olha para o
teto de uma estufa e finalmente concluiu que sementes são coisas para serem
odiadas.
Abriu um compartimento de seu braço robótico, ejetando
lentamente o bisturi destruidor de coisas que existem para serem odiadas, mas a
ferramenta letal emperrou no meio do caminho com um barulho de pão, levantando
uma questão engraçada: e se ele estivesse em um campo de batalha precisando
urgentemente daquela arma para se proteger de um ataque de coisas que existem
para serem odiadas?
Mas Miraflores é um robô, e robôs não acham graça de questões
engraçadas.
Utilizando a segunda lei de Newton calculou o torque necessário
para eliminar o problema e uma bolinha de pão saltou longe, liberando a
ferramenta num solavanco. Miraflores sentiu-se tentado a calcular a trajetória do
objeto lançado horizontalmente em queda livre, mas tinha coisas mais
importantes a fazer.
Aproximou o bisturi da semente disposto a destruí-la em mil
pedaços, quando avistou o brotinho nascendo inocente na lateral.
Seu sistema de proteção à vida desarmou toda a parafernália
interna e desabou inerte (algo equivalente a um desmaio de humanos
afrescalhados que não podem ver sangue sem dar chilique).
Do lado de fora da estufa, meia dúzia de observadores
anônimos quedaram embasbacados com o desfecho da novela de uma semana. Era
praticamente uma torcida que se reunia diariamente para ver o robô observador
de sementes.
- Alguém consegue me dizer que merda foi essa? – perguntou o
vice-presidente da empresa que apenas passava pelo local.
- O robô desmaiou! – respondeu o engenheiro de robótica com
sua melhor inocência (aliás, ele só usava esse modelo de inocência em ocasiões
muito especiais e considerou que era o caso no momento).
- Quer dizer... – o vice-presidente olhou ao redor para
certificar-se de que não era uma pegadinha do presidente que, aliás, era muito
gozador – ...quer dizer que eu invisto milhões de dinheiro em um projeto e o
resultado é um robô boiola?
- Sim.. não... a gente está fazendo umas melhorias nele.
- Melhorias? – o homem olhou novamente em volta, só podia
ser pegadinha – Esse robô já foi pior que isso?
- Sim... não... ele não era muito prático e lá no primeiro
blog do Miraflores nós decidimos infectá-lo com um vírus da ambição para
fazer com que produzisse mais.
- Produzisse mais? – o vice espumava de raiva e limpou a
boca na camisa de um estagiário desavisado... foi a dica para que a rodinha de
curiosos se dispersasse antes que sobrasse para todo mundo – Produzisse mais observando
semente durante uma semana e sem fazer mais nada de útil?
- Eu... – o engenheiro de robótica considerou a
possibilidade de usar o modelo de inocência especial novamente, mas achou que
seria exagero gastar todo o estoque em um único dia – ... eu apliquei no Miraflores o vírus de
um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado por engano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário é bem vindo, desde que seja um elogio, uma ofensa ou um link de propaganda. Não aceitaremos pedidos de empréstimo financeiro.
Seja discreto ao xingar a mãe do autor, caso contrário será excluido