O robô
Miraflores tinha acabado de encontrar a cura para o câncer pela terceira vez
consecutiva, e descartado as três soluções por absoluta falta de papel de
rascunho onde pudesse anotá-las, quando se deu conta de que precisava investir
seu tempo em algo mais produtivo. Utilizou a física quântica para descobrir o
maior segredo do universo, mas fez questão de esquecer rapidinho só para não
ganhar fama de fofoqueiro, afinal segredo é segredo e não se fala mais no assunto. Entre um bocejo e outro localizou o continente
perdido de Atlântida (uma decepção arquitetônica tão grande que nem merecia
divulgação). Em um último esforço para fazer a coisa certa, fosse ela qual
fosse, ele pesquisou e identificou o motivo do estranho fetiche do Bolsonaro pelos
gays (e bota estranho nisso), mas constatou horrorizado que nem a humanidade e
nem as baratas mereciam ser submetidas àquele tipo de desconforto sexual, emocional
e do mal.
“Pensar é
perda de tempo”. – concluiu desanimado antes de abrir um dos olhos ao acaso.
Tecnicamente não existe um bom
motivo para que robôs abram os olhos ao acaso, mas Miraflores não estava muito
preocupado com os bons motivos e abriu assim mesmo.
Seria um fato corriqueiro se
tivesse aberto o olho direito, pois é o tipo de olho que se pode abrir sem
causar grandes comoções no universo. Poderia inclusive ter aberto o olho
esquerdo, se fosse de seu agrado, mas jamais deveria ter exposto o terceiro
olho daquela maneira. Ajña, o sexto chacra, sempre provoca frisson entre
esotéricos e maconheiros portadores de neurônios defumados.
A notícia
do olho ímpar se espalhou rapidamente e os desocupados começaram a chegar ávidos
por fazer selfies ao lado do robô supra-humano que, segundo eles, teria a
capacidade de psicografar Mark Zuckerberg ainda vivo ou até mesmo mata-lo por
telepatia em caso de extrema necessidade. Chegavam em caravanas ecumênicas, andando,
caminhando ou mesmo a pé e sem reclamar da longa jornada que, não raro, durava longos
7 minutos – dependendo do tamanho do baseado que fumavam pelo caminho.
Muitos daqueles viajantes jamais
teriam ousado distancias maiores que o espaço entre seus próprios quartos e o
banheiro de suas casas se não fosse por uma boa causa. E mesmo assim orientados
por uma App do celular e somente após informar efusivamente aos amigos do
Facebook (quando o Facebook ainda funcionava, obviamente).
A reação
de todos na chegada era mais ou menos a mesma de qualquer um que chega a um
local aonde pretendia chegar. Ninguém dizia “Puxa! Não era aqui que eu
pretendia vir”, mas assim que avistavam o robô com um único olho aberto no meio
da testa já iniciavam o murmúrio. “Mau agouro”, diziam uns. “Maledicência”,
respondiam outros. “Mau gosto”, entoavam os estilistas italianos enquanto
elaboravam modelos de óculos coloridos e com uma única lente bem no centro da
armação. Lente antirreflexo, diga-se de passagem.
A
multidão de pessoas concentradas ao redor de Miraflores já chegava aos milhares
(segundo a polícia militar), embora os organizadores contabilizassem milhões.
Equipes de TV, radialistas e blogueiros selvagens se espancavam com microfones
e mouses sem fio na tentativa de encontrar a posição ideal para capturar
flagrantes do robô profeta.
Alguns elementos
desnorteados ainda ousavam interagir com frases minimalistas e desestruturadas
que confundiam a gramática computadorizada:
- E ai?
- O que?
– perguntava o robô tentando situar-se no diálogo.
- O que o
quê?
- O que o
que o quê?
E a coisa
podia durar infindáveis horas até que a bagana se consumisse por completo.
Outros, simulando
alguma expressão de inteligência, propunham charadas cósmicas mais incompreensíveis
que as próprias frases sem verbo e nem sujeito:
- É
possível chegar à verdade, mestre?
- A
distancia só depende da velocidade e do tempo. – respondia o robô citando a
mais elementar das equações que definem o movimento retilíneo e uniforme de um
objeto.
E o
sujeito partia satisfeito por finalmente entender que o tempo estaria a seu
favor se soubesse procurar a verdade com paciência.
Tudo
fluía sem maiores contratempos, apenas com um ou outro disco voador pilotado
por Pandas verdes gigantes e testemunhado pela multidão lesada, até que a
pergunta errada foi elaborada:
- Quando
teremos o Facebook de volta, mestre?
Miraflores,
que passava por uma fase de desintoxicação de redes sociais e ainda sofria com
as crises agudas de abstinência, silenciou por alguns instantes diante da
plateia ansiosa. Abriu o segundo olho (o da direita) e a multidão entoou um
“Óóóóóó!” em Dó maior. Ele gostou do efeito e abriu o olho da esquerda, só para
divertir a galera e tentar se esquecer da pergunta martirizante. Desta vez veio
um “Aaaaaaaa” em Lá menor, mas a turba não se contentou e insistiu na pergunta:
- O
Facebook volta, mestre?
Miraflores
tentou dizer a verdade.
“Não sei” é o que deveria ter
dito, mas seu projeto de infalibilidade robótica, que não lhe permitia não
saber alguma coisa, o interrompeu no meio da frase contrariando sua vontade
real:
- Não...
– foi a única palavra que conseguiu pronunciar com voz metalizada.
Um bilhão
mais sete pessoas ao redor do planeta morreram instantaneamente de ataque
cardíaco (representantes do G7, os presidentes dos Estados Unidos, Japão,
Alemanha, Reino Unido, França, Itália e do Canadá se recusaram a ser
contabilizados junto com o restante da humanidade e morreram separados); outros
quinhentos milhões de fanáticos por Facebook tiveram diarreia fulminante em
meio a restaurantes, templos religiosos, bailes de formatura e encontros românticos
e ainda tiveram de ouvir a piadinha dos amigos “que merda, hein?”; milhares de amantes
ardorosos desmaiaram durante o sexo liberando suas felizes parceiras para se
divertirem de verdade, só com o corpo dos machos (que era o que realmente lhes interessava).
Miraflores
vendo aquele pandemônio, pensando na cura do câncer e nas coisas maravilhosas que
sua genialidade poderia fazer em favor da humanidade, titubeou por um momento.
Preparou-se para explicar que ele poderia trazer o Facebook de volta, e muito mais, se
conseguisse conter seu próprio vício em redes sociais, mas então se lembrou do
Bolsonaro.
- Foda-se
a humanidade! – concluiu a frase e fechou os três olhos ao mesmo tempo.